sexta-feira, 22 de fevereiro de 2013

Os objetos/dejetos da UTI


“A noção de que qualquer vida, vale a pena ser vivida. E portanto, ela deve radicalmente ser defendida pelas práticas de saúde... Nós temos séculos de história, que mostra exatamente o contrário, mostra que a vida das pessoas não é considerada equivalente. E que muitas vidas, não vale a pena ser defendida.” – Emerson Merhy - Médico - professor da UFRJ (Palestra proferida em 2011)

         Uma questão que muito chocou algumas pessoas essa semana, foi a “postura” da médica de Curitiba, chefe de uma UTI de um grande hospital. Pelo que eu andei escutando dela, ela vem ganhando contornos cada vez mais “psicopata” a sua pessoa.

(Psicopata quase no mesmo sentido que Rubens Alves fala classificando um político que desvia verbas públicas, em prol de sua volúpia e ganância. Dinheiro esse, que poderia matar a fome de crianças na merenda de uma creche da periferia, ou comprar materiais e medicamentos de saúde, ou mesmo melhorar a situação de nossas ruas e estradas, no qual tantas vidas são ceifadas diariamente. Enfim, psicopatas engravatados: pouco ou nenhum senso de coletividade (senso social), afetividade nula também, e "matando" friamente muitas pessoas. E ainda se mostram sorridentes em eventos e na TV.)

Eu conversando com uma amiga, ela me questionou um incômodo aspecto: por que ninguém que trabalhava nesse hospital, denunciou essa médica?

Eu respondi: porque ela era a chefe...

E ela retrucou: mas então eles eram coniventes com ela, ou seja, participavam das mortes...

Eu: mas ela tacava tamanco nos seus subordinados. Se algum técnico de enfermagem a desagradasse, ela berrava palavrões contra ele... Ela chamava a equipe com um apito para se ter uma ideia... Fiquei sabendo dessas coisas, e não duvido absolutamente de nada...

Ela: se eu trabalhasse lá, eu faria pelo menos uma denúncia anônima.

        

Na discussão sobre a eutanásia, eu sou a favor, apesar de pouco “entender”, e talvez nem mesmo querer, pensar nesse assunto. Muito sentido me faz, uma pessoa optar, por sua própria vontade, numa “opção” mais “leve”, para que sua agonia final, seja antecipada, digamos.

         Sei que muito especialistas de saúde, atualmente discutem essa questão dos cuidados com os nossos moribundos. Já que possivelmente, em crescimento, a população vai se envelhecendo, e os cuidados com pessoas idosas aumentando. As verbas públicas, a atenção à saúde, o dinheiro, ou seja, muito se discute sobre esse aumento de custos que a humanidade terá, incidindo no cuidado com pessoas que vão adoecendo aos poucos...

         Muitos dizem: vamos cuidar de um idoso, deixá-lo em uma vaga de UTI, sabendo que ele terá pouca ou nenhuma sobrevida, e às vezes, lhe prescrevendo apenas cuidados paliativos, ou, vamos nos concentrar em uma criança doente, sendo que ela precisa, ou pode precisar, da mesma vaga na UTI que esse idoso ocupa?  Já li renomados especialistas em saúde, pontuarem que essa é uma questão muito a se pensar.

         Lembrei-me daquela história dos elefantes... Dizem que eles numa certa idade avançada, desvinculam-se da manada, e morrem sozinhos, voltando ao lugar onde nasceram. E também existe aquele filme japonês, que não me lembro do nome e nunca o assisti, mas me contaram, que mostra um senhor de bastante idade, que é levado nas costas pelo filho, por sua própria vontade, a um casebre no alto da montanha, para lá morrer sozinho e afastado da sua comunidade.

         Nós não somos elefantes. E nós não somos japoneses.

Nós somos de uma nação, que tem um povo com trabalhadores, como os cortadores de cana, que tem a vida útil de trabalho de apenas 10 anos (depois de uma década na colheita, para quem não sabe, os cortadores ficam “tortos”, digo, sua coluna vertebral faz uma "curva"). Nós temos um país onde milhões de pessoas, devido a muitos outros subempregos por qual se sujeitam a maior parte de suas vidas, tem a saúde também deteriorada. E essas pessoas por vezes se tornam idosos. E já vi muitos deles, serem abandonados por suas próprias famílias. E mesmo aquelas famílias que cuidam dos seus velhos, cuidam deles com muita dificuldade. Então, o que faremos com essa grande parcela da população?

         Com as palavras de Merhy, comecei a acreditar que mais ainda, como profissional de saúde, devemos defender todo tipo de vida, até mesmo, aquela que já está em seu final. Talvez pensando "poeticamente", às vezes, por exemplo, um momento qualquer “a mais” para a pessoa, pode-se tornar “eterno” para ela... Eu sempre penso nisso.

         Voltando ao caso médica da UTI, relacionando a algo mais geral, mais ordinário, e que se faz tão presente em nossas vidas, e em vários âmbitos: é a coisificação da vida, a coisificação das pessoas, principalmente nesse nosso ritmo econômico de respirar.

         Pelos jornais, ela matou para “liberar” vaga para as pessoas que tinham “convênio”.

         Assim, a vida de uma pessoa não valeu mais, do que o pouco mais “da migalha” que paga o convênio de saúde, em comparação ao SUS.

        

E tudo isso envolto a questão do atual colapso econômico que a maioria das Santas Casas de Misericórdia estão passando. Elas que tiveram um belo, sereno e filantrópico começo, mas que ao longo dos anos, se tornaram uma “grande caixa preta”, e/ou mesmo “caixa dois”. Muitos falam em déficit de financiamento, mas pelo menos regionalmente, é mesmo coisa de se “meter” a mão em dinheiro público, em dinheiro de “promoções beneficentes”.  Fora que essas Organizações Sociais (muitas Santas Casas são geridas pelas tais OS´s), não tem nenhum tipo de capacidade gerencial, ou seja, são totalmente desorganizadas em muito sentidos, ao invés de organizadas.  

         (E tudo isso envolto a uma declaração do Conselho Federal de Medicina que vem ganhando força, exigindo melhores salários para os médicos, como os de juízes. “Nós queremos carreiras como as de juízes”. Para ele, somente o médico ganhando como um juiz, é que fará a distribuição regional desse profissional por habitante melhorar.)

         Uma vez eu escutei uma história, em que uma colega enfermeira, na triagem de uma emergência de saúde pública, se recusou a atender um mendigo, declarando: “não achei meu nariz no lixo”.

        Acredito que diariamente, muitos de nós profissionais de saúde, não atendemos, e nem sequer escutamos determinadas pessoas, com suas queixas e sofrimento, pois temos que seguir o que se chama de “procedimento padrão”.

        Esquecemos que cada caso é um caso, que cada pessoa é única.

         Nós estamos nos tornando objetos, e “tratando” outras pessoas como objetos também.

domingo, 17 de fevereiro de 2013

UM CANHÃO PELO CU

Um texto que se tornou viral na Europa o ano passado, sobre essas “questões de mercado”, na narrativa de um importante escritor espanhol, vociferando sua opinião, da maneira que o assunto exige. Traduzido e publicado em um jornal Português...

Espanha
 
Texto foi publicado no El Pais
D.R.
04/12/2012 | 12:08 | Dinheiro Vivo
14 de Agosto de 2012. "Um canhão pelo cú" e "As relações impossíveis: Economia real- Economia financeira", eram os dois títulos do texto que Juan José Millás publicava na secção de cultura do El Pais. Em poucos dias tornou-se viral: 19000 shares no Facebook, 15 mil tweets, um país indignado. Hoje, Espanha está ainda pior, com quase 6 milhões de pessoas no desemprego.

Um canhão pelo cú

Se percebemos bem - e não é fácil, porque somos um bocado tontos -, a economia financeira é a economia real do senhor feudal sobre o servo, do amo sobre o escravo, da metrópole sobre a colónia, do capitalista manchesteriano sobre o trabalhador explorado. A economia financeira é o inimigo da classe da economia real, com a qual brinca como um porco ocidental com corpo de criança num bordel asiático.

Esse porco filho da puta pode, por exemplo, fazer com que a tua produção de trigo se valorize ou desvalorize dois anos antes de sequer ser semeada. Na verdade, pode comprar-te, sem que tu saibas da operação, uma colheita inexistente e vendê-la a um terceiro, que a venderá a um quarto e este a um quinto, e pode conseguir, de acordo com os seus interesses, que durante esse processo delirante o preço desse trigo quimérico dispare ou se afunde sem que tu ganhes mais caso suba, apesar de te deixar na merda se descer.

Se o preço baixar demasiado, talvez não te compense semear, mas ficarás endividado sem ter o que comer ou beber para o resto da tua vida e podes até ser preso ou condenado à forca por isso, dependendo da região geográfica em que estejas - e não há nenhuma segura. É disso que trata a economia financeira.

Para exemplificar, estamos a falar da colheita de um indivíduo, mas o que o porco filho da puta compra geralmente é um país inteiro e ao preço da chuva, um país com todos os cidadãos dentro, digamos que com gente real que se levanta realmente às seis da manhã e se deita à meia-noite. Um país que, da perspetiva do terrorista financeiro, não é mais do que um jogo de tabuleiro no qual um conjunto de bonecos Playmobil andam de um lado para o outro como se movem os peões no Jogo da Glória.

A primeira operação do terrorista financeiro sobre a sua vítima é a do terrorista convencional: o tiro na nuca. Ou seja, retira-lhe todo o caráter de pessoa, coisifica-a. Uma vez convertida em coisa, pouco importa se tem filhos ou pais, se acordou com febre, se está a divorciar-se ou se não dormiu porque está a preparar-se para uma competição. Nada disso conta para a economia financeira ou para o terrorista económico que acaba de pôr o dedo sobre o mapa, sobre um país - este, por acaso -, e diz "compro" ou "vendo" com a impunidade com que se joga Monopólio e se compra ou vende propriedades imobiliárias a fingir.

Quando o terrorista financeiro compra ou vende, converte em irreal o trabalho genuíno dos milhares ou milhões de pessoas que antes de irem trabalhar deixaram na creche pública - onde estas ainda existem - os filhos, também eles produto de consumo desse exército de cabrões protegidos pelos governos de meio mundo mas sobreprotegidos, desde logo, por essa coisa a que chamamos Europa ou União Europeia ou, mais simplesmente, Alemanha, para cujos cofres estão a ser desviados neste preciso momento, enquanto lê estas linhas, milhares de milhões de euros que estavam nos nossos cofres.
E não são desviados num movimento racional, justo ou legítimo, são-no num movimento especulativo promovido por Merkel com a cumplicidade de todos os governos da chamada zona euro.


Tu e eu, com a nossa febre, os nossos filhos sem creche ou sem trabalho, o nosso pai doente e sem ajudas, com os nossos sofrimentos morais ou as nossas alegrias sentimentais, tu e eu já fomos coisificados por Draghi, por Lagarde, por Merkel, já não temos as qualidades humanas que nos tornam dignos da empatia dos nossos semelhantes. Somos simples mercadoria que pode ser expulsa do lar de idosos, do hospital, da escola pública, tornámo-nos algo desprezível, como esse pobre tipo a quem o terrorista, por antonomásia, está prestes a dar um tiro na nuca em nome de Deus ou da pátria.

A ti e a mim, estão a pôr nos carris do comboio uma bomba diária chamada prémio de risco, por exemplo, ou juros a sete anos, em nome da economia financeira. Avançamos com ruturas diárias, massacres diários, e há autores materiais desses atentados e responsáveis intelectuais dessas ações terroristas que passam impunes entre outras razões porque os terroristas vão a eleições e até ganham, e porque há atrás deles importantes grupos mediáticos que legitimam os movimentos especulativos de que somos vítimas.

A economia financeira, se começamos a perceber, significa que quem te comprou aquela colheita inexistente era um cabrão com os documentos certos. Terias tu liberdade para não vender? De forma alguma. Tê-la-ia comprado ao teu vizinho ou ao vizinho deste. A atividade principal da economia financeira consiste em alterar o preço das coisas, crime proibido quando acontece em pequena escala, mas encorajado pelas autoridades quando os valores são tamanhos que transbordam dos gráficos.

Aqui se modifica o preço das nossas vidas todos os dias sem que ninguém resolva o problema, ou mais, enviando as autoridades para cima de quem tenta fazê-lo. E, por Deus, as autoridades empenham-se a fundo para proteger esse filho da puta que te vendeu, recorrendo a um esquema legalmente permitido, um produto financeiro, ou seja, um objeto irreal no qual tu investiste, na melhor das hipóteses, toda a poupança real da tua vida. Vendeu fumaça, o grande porco, apoiado pelas leis do Estado que são as leis da economia financeira, já que estão ao seu serviço.

Na economia real, para que uma alface nasça, há que semeá-la e cuidar dela e dar-lhe o tempo necessário para se desenvolver. Depois, há que a colher, claro, e embalar e distribuir e faturar a 30, 60 ou 90 dias. Uma quantidade imensa de tempo e de energia para obter uns cêntimos que terás de dividir com o Estado, através dos impostos, para pagar os serviços comuns que agora nos são retirados porque a economia financeira tropeçou e há que tirá-la do buraco. A economia financeira não se contenta com a mais-valia do capitalismo clássico, precisa também do nosso sangue e está nele, por isso brinca com a nossa saúde pública e com a nossa educação e com a nossa justiça da mesma forma que um terrorista doentio, passo a redundância, brinca enfiando o cano da sua pistola no rabo do sequestrado.

Há já quatro anos que nos metem esse cano pelo rabo. E com a cumplicidade dos nossos.

Fonte: http://www.dinheirovivo.pt/Economia/Artigo/CIECO056741.html?page=0

 

REBELDE SEM CAUSA

Rebelde Sem Causa

Ultraje a Rigor

 
 
Meus dois pais me tratam muito bem
(O que é que você tem que não fala com ninguém?)
Meus dois pais me dão muito carinho
(Então porque você se sente sempre tão sozinho?)
Meus dois pais me compreendem totalmente
(Como é que cê se sente, desabafa aqui com a gente!)
Meus dois pais me dão apoio moral
(Não dá pra ser legal, só pode ficar mal!)

MAMA MAMA MAMA MAMA
(PAPA PAPA PAPA PAPA)

Minha mãe até me deu essa guitarra
Ela acha bom que o filho caia na farra
E o meu carro foi meu pai que me deu
Filho homem tem que ter um carro seu

  Fazem questão que eu só ande produzido
Se orgulham de ver o filhinho tão bonito
Me dão dinheiro prá eu gastar com a mulherada
Eu realmente não preciso mais de nada

Meus pais não querem
Que eu fique legal
Meus pais não querem
Que eu seja um cara normal

Não vai dar, assim não vai dar
Como é que eu vou crescer sem ter com quem me revoltar
Não vai dar, assim não vai dar
Pra eu amadurecer sem ter com quem me rebelar

JÁ É HORA DE DORMIR, NÃO ESPERE MAMÃE MANDAR, UM BOM SONO PARA VOCÊ E UM ALEGRE DESPERTAR..


Já é hora de dormir, não espere mamãe mandar, um bom sono para você e um alegre despertar.” (Essa era uma cantiga que se repetia todos os dias à noite, cantada na TV antigamente, que pretendia avisar o momento em que o conteúdo da TV, já não era mais apropriado para as crianças.).

O cientista social Pedrinho Guareschi, num programa da própria televisão que assisti, verbalizou um dado estarrecedor, referente a uma pesquisa realizada no Rio Grande do Sul: a média de tempo que uma criança fica assistindo TV, não são quatro, nem cinco, nem seis – mas 9 horas diárias. Esse programa debateu a atual discussão que vem surgindo, sobre a influência da mídia (de maneira geral), na formação de nossas crianças. Foi discutida a questão, por exemplo, da classificação indicativa de conteúdo dos filmes, programas, jogos...

Sei que a média de tempo de um adulto é de três na frente da TV (isso sem contar o tempo com os computadores, Smartfones, etc...).

(Sobre a TV, eu sempre achei muito estranho, que atualmente em muitas residências, existam mais televisores, do que pessoas morando. Tamanha “importância” que a TV ganhou em nossos tempos...).

Ainda Guareschi, sobre a capacidade de aprendizagem de uma criança, diz que muito mais que um adulto, ela tem uma intensa capacidade de“absorver” (ansiando por aprendizagens) seu ambiente (sem barreiras, restrições, filtros), como sinais e linguagens que lhes estão sendo transmitindo a todo o momento na TV. Assim, ele alerta a tamanha “influência” que a televisão pode ter, na formação da“cabecinha” (subjetividade) de uma criança e sua posterior obviamente, vida adulta.

Um didático documentário lançado o ano passado, trouxe à tona de maneira “crua” e direta, como a TV e as propagandas publicitárias, estão influenciando nas “escolhas” alimentícias desastrosas, de nossas crianças e famílias. O filme chama-se “Muito Além do Peso” (2012) – e está totalmente disponível no próprio site:

http://www.muitoalemdopeso.com.br/.

 
 
"Atenção: 33,5% das crianças entre 5 e 9 anos estão com sobrepeso segundo a última pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Esse dado assustador incentivou a cineasta Estela Renner, mãe de três filhos, a fazer o excelente documentário MUITO ALÉM DO PESO. E ele também assusta, ao mostrar crianças do Rio Grande do Sul ao Pará que mal sabem o que é uma fruta, enquanto já decoraram o nome das maiores marcas de comidas industrializadas.

Some a isso o fato de que o Ministério da Saúde já anuncio que baixará de 18 para 16 a idade mínima para a realização de cirurgias de redução do estômago pelo SUS, depois de constatar que 21% da população entre 10 e 19 anos estão com sobrepeso."

Fonte:http://www.comerparacrescer.com/2013/01/22/muito-alem-do-peso/


Esse filme é muito provocador. Mostra o drama de algumas famílias e os danos que podem causar principalmente às nossas crianças, uma dieta regada à base de alimentos industrializados, como batatinhas fritas, refrigerantes, suco de saquinho, os “fast-food´s” e“junk-food´s” da vida (e cita sem pudor, várias marcas multinacionais alimentícias).

E é muito interessante para um profissional de saúde assisti-lo, penso eu, uma vez que o mesmo problema: a obesidade, é abordada de maneira multidisciplinar. E entendido como uma problemática complexa, acima de tudo.

(Esse filme foi patrocinado pelo Instituto ALANA – http://alana.org.br/. O Instituto Alana tem como uma das “pontas” do belo trabalho que realiza, a defesa de uma possível ética para com as nossas crianças, defendendo o direito delas simplesmente brincarem, por exemplo. E existe outro trabalho que realizam, no intuito de se desmascarar a relação dessa mídia (modo geral), influenciando sobremaneira no desenvolvimento das nossas crianças. Também, nesse site, ainda podemos encontrar interessantes textos, sobre a nossa sociedade na “Era do Consumo”).

Voltando ao filme, em um depoimento, um especialista alerta: “a TV é uma espécie de grande babá da nossa sociedade atual”. E questiona depois: “você mãe, você pai, deixaria seu filho com uma babá,“formada em Harvard”, especialista em vender tudo é qualquer coisa, quase todos os dias do ano?”.

Outra parte chocante, e realíssima do filme, “desdobra” o problema da obesidade e suas sérias consequências, já “aflorando” na mais tenra idade. Crianças com problemas cardíacos, diabéticas, cansadas, isoladas, depressivas... São retratadas.“Com resultados de exames de pessoas idosas.” – diz uma médica endocrinologista.

Ainda, o filme, como citamos acima, traz toda essa “pressão midiática”no qual todos nós estamos inseridos, sob esse único viés: o mercadológico. Uma criança com a espontaneidade peculiar de sua condição, justifica-se porque bebe tanta coca cola: “é que eu abro a felicidade!”. Crianças que não sabem a diferença entre um mamão de um abacate, de um tomate, também são mostradas.

“E ainda existem pessoas que culpam os pais... Dizendo que eles não sabem dizer “não” aos seus filhos.... Impondo-lhes limites.... Por isso os filhos tornam-se obesos...” diz um especialista, referindo-se a luta desigual que um pai pode ter na educação do filho, concorrendo ele, com a televisão, que oferece a todo o momento e em todo lugar, o brinquedinho do MC Feliz, de maneira muito mais massiva e coercitiva, por exemplo. Tornando a tarefa de educá-los, uma tarefa cada vez mais complicada, árdua, principalmente nesse quesito da alimentação.

Voltando ao programa sobre a questão da nossa “grande mídia”, Guareschi disse também, que é necessário que ocorra um melhor debate a nível nacional. Pois essa questão é algo que diz respeito não apenas aos empresários do ramo (que só querem vender), mas também ao estado, e principalmente a sociedade. Ele disse que geralmente as empresas de comunicação, alertam que esses "apelos" para uma melhor reelaboração de sua programação (como a questão da expulsão, ou ao menos modificação, das propagandas de cervejas), seja entendido como um retrocesso, bradam em censura, e até ressaltam que uma atitude dessas (de se modificar por apelo da população, por meio de um plebiscito, por exemplo), seria algo inconstitucional.

“Pensar assim é uma falácia!”, para Guareschi. Pois, explicou que como na constituição está o artigo da Liberdade de Expressão muito claro, em outro artigo, está também claramente escrito que o estado deve interferir nas regras, no “jogo”, do mercado. E o que é a propaganda de televisão de cerveja, senão a mais pura questão de mercado? E que interfere diretamente e incisivamente na nossa sociedade, principalmente nas mortes de trânsito – saúde pública, só para citar uma delas (áreas).

Outra discussão que foi levantada é fato: na nossa TV aberta, tem pouca, ou quase nenhuma programação infantil. Somente quem está podendo ter TV por assinatura, é que está colocando algum programa infantil de TV, para os filhos assistirem. (E não estamos ainda falando em programas infantis de boa qualidade).

E o que nossas crianças estão assistindo então, nos canais de TV abertos? Infelizmente, sabemos, que nove horas da manhã, dependendo do canal que colocarmos, só aparecerá esse negócio de programa de se ganhar 1 milhão de reais? E aos montes cada vez mais, existem aqueles canais de “expulsa demônio”, nesse mesmo nobre horário matinal.

Em minha opinião, o governo deve e tem que interferir nessa questão da mídia, da televisão. A cesta básica que nos é de direito, além de saúde, educação, alimentação, segurança, é essencial conter também a cultura. Assim, é necessária uma programação com mais qualidade, pelo menos para as nossas crianças.

A TV, que é o veículo de comunicação de maior abrangência, não pode apenar servir exclusivamente para vender produtos, e entretenimento.

(Me veio uma lembrança, de quando trabalhava no sertão do Tocantins. Era aquela época que começou a se implantar por lá, o programa federal LUZ PARA TODOS. E depois que alguns agricultores tiveram acesso à luz em suas casas, e logo em seguida comprarem a TV, um comentário que surgiu, é que em muitas terras, com as suas plantações, estavam se perdendo, secando. O motivo: as pessoas não saiam mais para cuidarem “da roça”. Só queriam ficar assistindo TV).

Acho que em 2010, ocorreu uma Conferência Nacional sobre Comunicação. E lembro-me que as grandes emissores de TV e rádio, quase tiveram um“ataque cardíaco” (poucas participaram do evento, pois a maior parte das grandes boicotaram e não participaram), quando surgiu a ideia de que a sociedade, a população, deveria opinar, participar, de modo direto, podendo exigir mudanças se for o caso, na programação da TV e rádio.

Essa ideia é um direito, e já acontece em outras áreas de interesse público: é o chamado CONTROLE SOCIAL, onde a sociedade tem representatividade, participando de maneira ativa. Como na saúde, no judiciário, na assistência social, por meio dos conselhos, como: o Conselho Nacional de Justiça, o Conselho Estadual de Saúde, o Conselho Municipal de Assistência Social etc., ou seja, é a nossa voz, interesses e poder, mediante essas áreas que estão tão intrinsecamente relacionados à vida de todos.

Um incrível programa, voltado à criançada que eu adoro assistir, é o TV PIÁ, que passa na TV BRASIL, em domingos como este, logo depois do almoço.




(Por falar em domingo, existe até aquele ditado, que diz que domingo só não é o pior dia da televisão brasileira, porque nesse dia, não passa aquelas chatas novelas...).

Finalizando, uma reclamação que eu quero fazer aqui em público, que me deixou muito “emputecido” o ano passado, foi quando cortaram, na Globo,“sem mais nem menos” o desenho da “Liga da Justiça”,colocando em seu lugar o programa da Fátima Bernardes.

É que na escassa existente programação da Globo, voltada ao público infantil, o ano passado, passava antes do jornal local, o desenho Liga da Justiça. E eu estava acompanhando aquele desenho. Até saia“correndo” para o horário do almoço, para conseguir assisti-lo. Tentando entender o enredo, os personagens, os episódios. E de repente, “do nada”, eles “cortaram” o desenho, e colocaram o“Encontro”.

Por que eles não fazem isso com as chatas novelas? Tipo: podem parar de passar quando elas chegarem metade (quando a mocinha se separa do mocinho, mas descobre depois que está grávida dele..). Por que não fazem isso com o Faustão, Gugu... Já pensou se pararem de transmitir um jogo de futebol do domingo, no começo do segundo tempo? Ou o Big Brother, se eliminarem as pessoas em uma rodada só?

Como eles interrompem uma programação dessa maneira? Voltada para as crianças? Sem nenhum tipo de aviso, explicação... Que falta de consideração é essa, para com as nossas crianças? Será que elas não tem direito de assistir um desenho, momento antes de irem para suas escolas? Será que o que apenas temos a oferecer, para elas, é essa cultura de adulto infantilizada? Com essas músicas por exemplo: “eu quero chu, eu quero chá”? Onde não sabemos mais o que é voltado para adultos, e o que é voltado para crianças: sabemos apenas que tudo é voltado para o consumo...



pg. 240 do Capítulo: Controle do Tabaco Vs Controle do Álcool: convergência e diferenciações necessárias escrito por Isabella Henriques - in: Controle do Tabaco e o Ordenamento Jurídico Brasileiro

Como eu disse, estava entendendo a história da Liga da Justiça e achando muito interessante: como os personagens estavam sendo inseridos no enredo, qual era o grande vilão, etc. E num belo dia,“esquizofrenicamente”, foi tirado da programação, depois de ter passado apenas a metade dos episódios.

Quando o desenho estava ficando bom. Quando a Liga já estava toda formada...

Enfim, acho que sou um idiota mesmo, como aquele produtor da Xuxa declarou esses tempos, apontando para pessoas como eu, que ao invés de assistirem programas como o da Xuxa, preferem assistir o Pica-Pau, que apresenta melhor Ibope inclusive (e o produtor estava mordido de raiva por isso). Para ele, quem assisti Pica-pau, ao invés do programa da Xuxa, é um “bando de gente idiota e sem cultura”.



 

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

"É difícil / extrair novidades de poemas / no entanto, pessoas morrem miseravelmente / pela falta daquilo que ali se encontra."

(Abaixo, um artigo rememorando o saudoso Moacyr Scliar que venho guardando. Uma vez escutei ele falar, que uma forte fonte de aprendizado que teve na vida, foi os anos de trabalho como médico de saúde pública, em alguns postos de saúde do Rio Grande do Sul....)

biblioterapia

Literatura faz bem para a saúde

Não é de admirar que a leitura tenha se tornado um recurso terapêutico ao longo dos tempos

Por Moacyr Scliar*Revista Vida Simples - 02/2008
"É difícil / extrair novidades de poemas / no entanto, pessoas morrem miseravelmente / pela falta daquilo que ali se encontra." O poeta e dramaturgo modernista americano William Carlos Williams (1883-1963) sabia do que estava falando quando escreveu esses versos: além de escritor multitalentoso, tinha formação em medicina e efetivamente trabalhava cuidando da saúde dos outros. A partir de sua afirmativa, a pergunta se impõe: o que existe, nos poemas e na literatura em geral, que pode manter as pessoas vivas e, quem sabe, até ajudar na cura de algumas doenças?
Em primeiro lugar, podemos destacar as próprias palavras. Que são, como costumavam dizer os antigos gregos, um verdadeiro remédio para as mentes sofredoras. Não se tratava só de uma metáfora engenhosa e sedutora: no século 1 d.C. o médico romano Soranus prescrevia poemas e peças teatrais para seus pacientes. O teatro, aliás, era considerado uma válvula de escape para aquelas emoções reprimidas que todos têm, através da catarse (alívio) que proporciona.
A palavra tem um efeito terapêutico. Verbalizar ajuda os pacientes, e esse é o fundamento da psicoterapia - ou talk therapy, como dizem os americanos. E a inversa é verdadeira: ao ouvir histórias, as crianças sentem-se emocionalmente amparadas. E não apenas elas, claro. Todos nós gostamos de escutar causos e de nos identificarmos com alguns deles. Dizia Bruno Bettelheim (1903-1990), psicólogo americano de origem austríaca, sobrevivente dos campos de concentração nazistas: "Os contos de fadas, à diferença de qualquer outra forma de literatura, dirigem a criança para a descoberta de sua identidade. Os contos de fadas mostram que uma vida compensadora e boa está ao alcance da pessoa, apesar das adversidades".
Não é de admirar, portanto, que a leitura tenha se transformado em recurso terapêutico ao longo dos tempos. No primeiro hospital para doentes mentais dos Estados Unidos, o Pennsylvania Hospital (fundado em 1751 por Benjamin Franklin), na Filadélfia, os pacientes não apenas liam como escreviam e publicavam seus textos num jornal muito sugestivamente chamado The Illuminator ("O Iluminador", em inglês). Nos anos 60 e 70 do século 20, o termo "biblioterapia" passou a designar essas atividades. Logo surgiu a "poematerapia", desenvolvida em instituições como o Instituto de Terapia Poética de Los Angeles, no estado americano da Califórnia. Aliás, nos Estados Unidos existe até uma Associação Nacional pela Terapia Poética.
Aqui no Brasil, já temos várias experiências na área. No livro O Terapeuta e o Lobo - A Utilização do Conto na Psicoterapia da Criança, o psiquiatra infantil, poeta e escritor Celso Gutfreind destaca a enorme importância terapêutica do conto, como forma de reforço à identidade infantil e como antídoto contra o medo que aflige tantas crianças. Também é de destacar o Projeto Biblioteca Viva em Hospitais, realizado no Rio de Janeiro e mantido pelo Ministério da Saúde, pela Fundação Abrinq pelos Direitos da Criança e por um grande banco. A leitura, realizada por voluntários, ajuda a criança a vencer a insegurança do ambiente estranho e da penosa experiência da doença, terrível para todos, mas ainda mais amedrontadora para os pequenos.
Finalmente, é preciso dizer que a literatura pode colaborar para a própria formação médica. Muitas escolas de medicina pelo mundo, inclusive no Brasil, estão incluindo no currículo a disciplina Medicina e Literatura. Através de textos como A Morte de Ivan Illich, do escritor russo Léon Tolstoi (em que o personagem sofre de câncer), A Montanha Mágica, do alemão Thomas Mann (que fala sobre a tuberculose) e O Alienista, do brasileiro Machado de Assis (uma sátira às instituições mentais do século 19), os alunos tomam conhecimento da dimensão humana da doença. E assim, mesmo que muitas vezes indiretamente, a literatura passa a ajudar pacientes de todas as idades.
*Moacyr Scliar é médico sanitarista e um dos principais escritores brasileiros, autor de, entre outros, A Paixão Transformada, um ensaio sobre as relações entre medicina e literatura.
 
Link:

 


quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

O FILHO QUE EU QUERO TER


 
O Filho Que Eu Quero Ter


É comum a gente sonhar, eu sei
Quando vem o entardecer
Pois eu também dei de sonhar
Um sonho lindo de morrer.

Vejo um berço e nele eu me debruçar
Com o pranto a me correr.
E assim chorando acalentar
O filho que eu quero ter.

Dorme meu pequenininho,
Dorme que a noite já vem.
Teu pai está muito sozinho
De tanto amor que ele tem.

De repente o vejo se transformar
Num menino igual a mim
Que vem correndo me beijar,
Quando eu chegar lá de onde vim.

Um menino sempre a me perguntar
Um porquê que não tem fim.
Um filho a quem só queira bem
E a quem só diga que sim.

Dorme menino levado,
Dorme que a vida já vem.
Teu pai está muito cansado
De tanta dor que ele tem.

Quando a vida enfim me quiser levar
Pelo tanto que me deu
Sentir-lhe a barba me roçar
No derradeiro beijo seu.

E ao sentir também sua mão vedar
Meu olhar dos olhos seus
Ouvir-lhe a voz e me embalar
Num acalanto de adeus...

Dorme meu pai, sem cuidado.
Dorme que ao entardecer
Teu filho sonha acordado
Com o filho que ele quer ter...

VENDAS DE VAGAS DE MEDICINA ATÉ DA USP! 16 ANOS DEPOIS..


Alguém se lembra desse caso? Alguém sabe o que aconteceu? Alguém foi punido? Algum diploma casado?

Olhem a desculpa que a repórter deu:

“Quero passar para medicina sem estudar muito porque não tenho nem tempo. Trabalho com meu pai em São Paulo e sei que sem estudar é difícil.”

E olha a desculpa que a mulher que vendia as vagas deu:

“— Faço isso para ajudar as famílias dos alunos. Tem certos casos em que o aluno estuda, estuda um ano ou dois, e não consegue passar de jeito nenhum. A vida dele pára e até problemas psíquicos começam a aparecer. A família começa a viver em função daquele problema — disse ela durante a conversa.”

Abaixo, a notícia na íntegra:

Publicado em: O Globo (O País) em 25 de Agosto de 1996

Quadrilha vende vagas em faculdades paulistas

Por Rodrigo França Taves

Aprovação garantida custa de R$ 25 mil a R$ 45 mil. Esquema é tão seguro que o pagamento chega a ser facilitado.

BRASÍLIA - O vestibular de São Paulo está comprometido, antes mesmo de abertas as inscrições. Uma quadrilha com ramificações em várias cidades está vendendo, de R$ 25 mil a R$ 45 mil, vagas em faculdades de medicina e odontologia em São Paulo, São José do Rio Preto, Botucatu, Catanduva, Marília, Araçatuba e Araraquara.

A fraude envolve o mais importante concurso do estado. Dez vagas na faculdade de medicina da Santa Casa de Misericórdia já estão vendidas desde junho. Os alunos da Santa Casa são escolhidos através do Fuvest, assim como os da USP e da Universidade de Campinas (Unicamp).

Para comprovar a fraude, sobre a qual a Delegacia do Ministério da Educação em São Paulo já tinha recebido informações, o GLOBO conseguiu gravar em fita cassete duas conversas do repórter, que dizia estar interessado numa vaga em faculdade de medicina, com a dona de um curso pré-vestibular de São José do Rio Preto que se apresentou como intermediária.

O esquema não envolve escuta eletrônica, cópia de gabarito ou troca de provas, como nas fraudes tradicionais. A quadrilha tem acesso ao sistema de digitação dos gabaritos e, portanto, à organização dos vestibulares.

O aluno interessado precisa apenas pagar uma entrada de 40%, dar uma xerox com o número da inscrição e fazer a prova normalmente. Na conversa, a professora Fátima Souza, dona do Reforço Escolar 137, ofereceu 100% de garantia de aprovação. O aluno interessado seria procurado depois do concurso em seu escritório por outro integrante da quadrilha encarregado de cobrar a segunda parcela do negócio. Até seu endereço seria descoberto pelos documentos de inscrição no vestibular, aos quais eles têm acesso.

Os preços do esquema variam de acordo com a instituição: uma vaga na faculdade de medicina da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp) em São José do Rio Preto custa R$ 25 mil. A professora disse que poderá vender este ano dez das 64 vagas da faculdade, das quais seis já estariam pagas e duas em negociação.

O vestibular é o Vunesp. Na tabela da corrupção, a quadrilha cobra o mesmo preço para ingresso sem esforço na Universidade de Marília (Unimar) e na Faculdade de Medicina de Catanduva, que fazem vestibulares isolados.

Já na Unesp de Botucatu, onde os alunos também ingressam pelo Vunesp, as vagas custam R$ 20 mil antes da inscrição e R$ 25 mil depois dos resultados — o mesmo preço da Santa Casa. Por ser realizado em duas fases, o Fuvest é mais trabalhoso também para os fraudadores.

A professora disse que o esquema funciona há pelo menos oito anos sem falha. Os integrantes da quadrilha responsáveis pela fraude num dos vestibulares não conhecem os do outro, para dificultar a ação da polícia.

— Já é o quarto ano que intermedio. É um esquema absolutamente garantido, tanto que recebemos a maior parte do valor depois que o aluno já está aprovado. É uma troca de confiança: o aluno confia na gente agora e nós corremos o risco de não receber a segunda parte depois que ele já estiver aprovado — disse.

Para a delegada do MEC em São Paulo, Gilda Portugal, não resta dúvida de que a comprovação da fraude "põe sob suspeita o vestibular de São Paulo":

Trechos da conversa com Fátima, integrante da quadrilha

 'VOCÊ SÓ TEM QUE FAZER A PROVA'

 O GLOBO: Quero passar para medicina sem estudar muito porque não tenho nem tempo. Trabalho com meu pai em São Paulo e sei que sem estudar é difícil.

FÁTIMA: Você quer fazer aqui? Porque pode ser até em São Paulo...

O GLOBO: Aqui.

FÁTIMA: Bom, o negócio é assim: feito o contato, você vai fazer sua inscrição normal. Depois você me entrega uma xerox da inscrição porque o trabalho é feito todo com o número de inscrição, e é feito o contato todo com você no seu escritório. Então não tem gabarito, não tem nada, nada, nada, não tem passagem eletrônica; isto tudo é arriscado. Você só tem que fazer a prova, tá? A forma de pagamento é feita da seguinte forma: quando a pessoa é conhecida fica mais fácil, porque sabe com quem está lidando...

O GLOBO: Essa questão de dinheiro não tem problema...

FÁTIMA: Primeira coisa: você paga agora dez e o resto depois da sua matrícula. O negócio é de tanta garantia que pode ser feito assim.

O GLOBO: E se eu quiser fazer em outra cidade?

FÁTIMA: Nas outras cidades que nós temos é particular. Aqui é estadual, a faculdade foi estadualizada pela Unesp. Então não tem problema, porque você não vai pagar mensalidade, só a matrícula. O GLOBO: Todas as outras são particulares?

FÁTIMA: São três particulares e duas que não são particulares. E tem a que é estadual, aí é a USP, e ela é bem mais cara. Eu vou ser sincera com você: não compensa. É o mesmo nível de São José do Rio Preto, só que o preço dela é R$ 45 mil.

O GLOBO: R$ 45 mil na USP?

FÁTIMA: Não é USP, é Unesp também, só que Unesp da Júlio de Mesquita. Aqui é Rio Preto-Unesp mas é uma fundação.

A USP não; a USP é Ribeirão Preto. São Paulo só tem a Santa Casa, nesse mesmo preço.

O GLOBO: R$ 45 mil?

FÁTIMA: R$ 45 mil, mas você vai pagar de entrada R$ 20 mil.

O GLOBO: E quais são os outros lugares que eu poderia escolher, mesmo sendo particular?

FÁTIMA: Catanduva e Marília. Uma é Funesp, outra é particular... mas não é vantagem para você porque vai estudar onde você quer e o destino é certo.

O GLOBO: Mas como a gente vai saber se vai dar certo, como é o esquema?

FÁTIMA: Você vai fazer a prova normal, como qualquer outro aluno.

O GLOBO: Faço a prova sem saber nada. E aí?

 FÁTIMA: Aí eles vão cuidar do teu problema, não há contato com você, nada. Por isso preciso do seu número, do seu código.

O GLOBO: É na hora de computar, talvez?

FÁTIMA: É na hora. É uma empresa que faz o vestibular, a Vunesp. Intermediária desconfia do logro mas mantém negócio Ao ser descoberta, diz que tinha pena dos alunos que têm dificuldades e acabam com problemas

BRASÍLIA - Mesmo já desconfiada de que não estava lidando com um estudante, depois da segunda conversa com o repórter do GLOBO, a professora Fátima Souza forneceu um número de conta-corrente no Banco Bamerindus para que os R$ 10 mil de entrada pela compra de uma vaga na Faculdade de Medicina da Unesp, em São José do Rio Preto, fossem depositados.

Os dois encontros foram realizados no fim de semana passado em seu curso pré-vestibular, na Rua Ipiroldes Borges, em São José do Rio Preto, e as conversas posteriores foram em telefonemas para o hotel onde seu suposto cliente estava hospedado.

Para gravar a história, o jornalista se apresentou como filho de um empresário paulista do ramo de comércio exterior. Antes de selar o negócio, a professora exigiu referências pessoais do aluno e fez questão de saber quem tinha indicado o esquema. Foi preciso que uma pessoa se apresentasse como pai do aluno, numa ligação para a casa dela, para que Fátima aceitasse incluir o repórter na relação de dez estudantes que não precisarão se esforçar para ingressar na universidade.

— Faço isso para ajudar as famílias dos alunos. Tem certos casos em que o aluno estuda, estuda um ano ou dois, e não consegue passar de jeito nenhum. A vida dele pára e até problemas psíquicos começam a aparecer. A família começa a viver em função daquele problema — disse ela durante a conversa.

Ao saber que suas conversas tinham sido gravadas por um repórter do GLOBO, a professora negou sua participação no esquema de venda de vagas e justificou as conversas com o argumento de que apenas tentava descobrir quem queria prejudicá-la.

Fátima pôs à disposição suas contas bancárias e telefônicas para provar que tem um padrão de vida baixo, incompatível com a corrupção que intermedia. Professora ameaça processar repórter por causa da denúncia

— Pago dois aluguéis e tenho um carro usado. Não tenho padrão de vida para quem faz o que vocês estão dizendo. Vou te processar se essa reportagem for publicada — ameaçou.

Como o Fuvest e o Vunesp são fiscalizados pelo Conselho Regional de Educação de São Paulo, a delegada do Ministério da Educação, Gilda Portugal, pretende se reunir com os conselheiros para discutir o que fazer diante da denúncia.

O MEC, segundo ela, tem responsabilidade direta pelos vestibulares isolados das faculdades particulares.

 

Fonte:

http://www.bv.fapesp.br/namidia/noticia/20287/quadrilha-vende-vagas-faculdades-paulistas/