quinta-feira, 21 de março de 2013

A MILÍCIA MÉDICA/POLÍTICA EM AÇÃO

A MÍLICIA MÉDICA/POLÍTICA EM AÇÃO.

NA PRÓPRIA FALA DE UM VEREADOR: “Estão querendo atropelar o processo para aparecer mais do que o rei”, concluiu.

21/03/2013 13:38

Oposição a Bernal derruba CPI da Saúde e base promete revanche na próxima sessão

Lidiane Kober

A oposição ao prefeito Alcides Bernal (PP) reagiu, nesta quinta-feira (21), à instalação de CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) para investigar a saúde em Campo Grande e conseguiu convencer vereadores a retirar assinaturas, o que, a princípio, inviabiliza a investigação.

Em resposta, integrantes da base aliada do prefeito prometem levar, na próxima terça-feira (26), representantes do setor para tentar sensibilizar a Câmara sobre a gravidade das denúncias de desvio de verbas em hospitais da Capital.

A iniciativa de abrir a CPI partiu da vereadora Luiza Ribeiro (PPS), que rapidamente ganhou o apoio do vereador Zeca do PT. Os dois se uniram para conseguir as 10 assinaturas necessárias para garantir a tramitação da comissão.

Aderiram à proposta, além de Luiza e Zeca, os vereadores Cazuza (PP), Waldecy Chocolate (PP), Paulo Pedra (PDT), Alceu Bueno (PSL), Eduardo Romero (PT do B), Gilmar da Cruz (PRB) e Chiquinho Telles (PSD). O plano era atrair o apoio do vereador Ayrton do PT, ausente da sessão, para garantir as 10 assinaturas.

A ideia, no entanto, se desmontou após manifestação do vereador Paulo Siufi (PMDB), presidente da Comissão de Saúde. Ele alegou que a CPI é uma tentativa de“desviar o foco da devassa na prefeitura” e defendeu que já existe a Comissão de Saúde para realizar a tarefa proposta pela CPI. “Querem fazer o papel da Polícia Federal”, perguntou aos colegas de Casa.

Ele ainda fez questão de dizer que “não estamos camuflando nada”. “Se os órgão competentes, que estão cuidando das investigações, não tomarem providências, aí a gente pode abrir a CPI”, emendou. Com a alegação, decidiram retirar apoio à investigação os vereadores Chiquinho Telles, Alceu Bueno e Gilmar da Cruz.

“Estão colocando a carroça na frente dos bois”, alegou Chiquinho. Bueno, por sua vez, disse que a decisão levou em conta orientação do líder do prefeito na Câmara, vereador Alex do PT, que surpreendentemente não assinou o documento, após várias declarações de Bernal em favor da CPI.

Alex reagiu à declaração de Bueno e garantiu não ter orientado ninguém a retirar o nome do documento. Ele alegou que, como líder, preferiu não entrar na discussão para evitar o acirramento da relação da oposição com o prefeito. A decisão irritou o colega de bancada, Zeca do PT.

Não vamos desistir da CPI, diz vereadora

Apesar da dificuldade em coletar as 10 assinaturas, Luiza garantiu que não desistirá da CPI. “Na próxima sessão, vamos trazer representantes do Conselho Curador dos hospitais e do Conselho Municipal de Saúde para tentar sensibilizar os colegas da gravidade da situação”, explicou.

Para a vereadora, a missão da Câmara é fiscalizar a gestão do dinheiro público. “Não podemos nos omitir”, defendeu. Ela se referia as denúncias de desvio de dinheiro público em hospitais da Capital e do Estado. O assunto está na mira da Polícia Federal que, na última terça-feira (19), deflagrou a Operação Sangue Frio.

Presidente da Câmara Municipal, o vereador Mário César (PMDB) garantiu que a Casa fará sua parte. “Não fomos omissos, estamos trabalhando com responsabilidade, só não queremos fazer pré-julgamentos”, disse. Ele reforçou a teoria de que cabe a Comissão de Saúde atuar no caso. “Estão querendo atropelar o processo para aparecer mais do que o rei”, concluiu.
 

Pequenos Trechos


Pequenos Trechos
Zédu

 
Felicidade não passa de pequenos trechos
Pelos quais passamos todo dia, toda hora
Invariávelmente desatentos

Ao passar é comum olhar adiante, o horizonte
Quando bastaria olhar ao lado e ver
Maravilhosos trechos, um monte

Felicidade não passa de pequenos trechos
Pelos quais passamos todo dia, toda hora
Invariávelmente desatentos

Desnecessário percorrer tantas vezes
Idênticos caminhos
Pra se chegar ao óbvio lugar

Felicidade não passa de pequenos trechos
Pelos quais passamos todo dia, toda hora
Invariávelmente desatentos

quarta-feira, 20 de março de 2013

Casa & Carrapato

Esses dias fomos (eu e uma colega Agente de Saúde) visitar uma família: a tia-avó e o seu sobrinho.

Conheço essa família há muito tempo. Essa tia-avó, bem idosa, cuida do sobrinho, que tem 11 anos, desde criancinha. Ela nunca se casou e nem teve filhos.  A mãe desse menino às vezes passa uns dias por ano na casa onde os dois vivem, ela é profissional do sexo, e passa longas temporadas longe do filho em outras cidades do estado.

A primeira visita que realizei a essa família, há alguns anos atrás, encontrei a mãe do menino na casa. Nós havíamos ido a casa, mediante a queixa da tia e da escola, de que o menino não estava estudando, e que provavelmente até perderia o ano letivo. Nós conversamos com essa mãe, e ela explicou o motivo do filho ainda estar sem estudar, mas disse que prontamente, colocaria novamente o filho na escola. O menino voltou à escola, e não perdeu o ano escolar.

O menino sabe que a mãe é profissional do sexo, pois sua tia “vira e mexe”, fala disso para o menino, e com o menino. Para o menino não faltam nada de coisas materiais. No quartinho adaptado na sala da casa simples da tia, tem um videogame de última geração, computador, TV grande, brinquedos etc.

O pai desse menino é totalmente ausente, e ele nem gosta que a tia-avó se refira ao pai, chamando-o de pai dele. Prefere que ela o chame pelo nome, como ele mesmo faz.

O penúltimo encontro que tive com essa família, aconteceu no posto de saúde. Conversamos sobre um fato que envolveu até o Conselho Tutelar. O menino havia queimado a tia-avó com a ponta do cigarro dela, no pé, justificando essa atitude como uma forma de protesto, pois não queria que ela continuasse com o vício. Uma vizinha chamou o Conselho Tutelar. A tia relatou esse acontecimento, com um sorriso no rosto. Mostrou-nos a marca da cicatriz da queimadura no pé, e logo depois disse que o sobrinho se preocupa com ela. Ou seja, apesar de toda a agressividade do sobrinho contra ela, ela ainda de alguma maneira tem “prazer”, por aquela e outras atitudes do menino, que demonstram que ela tem importância, que alguém se preocupa com ela.

No momento desse encontro relatado acima, o menino estava muito ansioso, pois a sua mãe novamente, talvez por se sentir rejeitada mediante a relação do menino com a tia-avó, vez ou outra, ameaça para os dois, a possibilidade de levar o filho, para onde está residindo. Mas nunca o leva definitivamente.

A tia-avó diz que não tem condições do menino ir com ela. Que ele já passou uns dias com a mãe, e voltou “falando cada coisa”, que “viu cada coisa”, “é muita bebedeira e noites mal dormidas no ambiente da mãe”. Ela reafirma que não tem condições do menino viver em um prostíbulo. Ela não tem a guarda dele, está com a mãe. Nós conversamos dizendo que é muito ruim para o menino, essa indecisão do menino ir ou não, ainda mais naquele momento de matrícula escolar de volta às aulas.

A tia-avó disse que o menino não a respeita. Mas disse que é um menino muito doce também. E em outro momento, diz que faz muitas dívidas para satisfazer o desejo do menino, comprando um jogo novo de computador por exemplo. O menino nesse momento disse que sua mãe manda dinheiro sempre. Mas a tia-avó fala que é muito irregular o dinheiro que ela manda. A tia-avó é aposentada.

 

Nós retornamos desta última vez a casa, para perguntarmos como estava a situação da família com o Conselho Tutelar, e o menino novamente pelo que ficamos sabendo, não estava querendo ir à escola. Depois de nossa última conversa, parece que estava definido que ele não iria morar com a mãe mesmo, mas ele havia mudado de escola. E a escola em que estava estudando atualmente, era considerada mais rígida, e ele estava querendo retornar para a escola do ano passado. Porém, parece que não pode fazer isso, segundo a tia-avó.

A tia-avó advertiu-o já na frente da residência mesmo, dizendo que ele tinha que responder por suas escolhas. Que foi ele quem escolheu mudar de escola. Dissemos que ainda estava no começo do ano letivo, e que ele estava ainda em fase de adaptação a nova escola.  A tia-avó completou falando que ele não estava indo na escola, porque ficava todo dia assistindo filme e jogando vídeo game até tarde da noite.

Nesse dia, ao chegarmos a casa deles, a tia-avó e ele, estavam lavando a pequena área da frente da casa. Fomos recebidos, por 5 cachorros vira-latas, que estavam muito agitados, e a todo momento ficaram “pulando” em nós. Havia um cachorro que estava sangrando no seu lombo, perto do pescoço. Avisamos a tia-avó, que aquele cachorro estava mal. Ela gritou para o menino como se ele fosse o culpado pela situação do cachorro, e disse que estava doando aquele cachorro, e perguntou senão conhecíamos alguém que gostaria de levá-lo. Na ferida do cachorro também, coexistia por entre os pelos engruvinhados e sangue, alguns carrapatos- fêmea, com forma de feijões de cor acinzentada. Depois de alguns gritos da tia-avó com os cachorros, e a água “rapada” pelos dois,  quando adentramos já na casa, no quarto do menino, percebemos que algo estava muito errado ali.  

Os carrapatos estavam surgindo em todo lugar. Inclusive subindo em nossas pernas e nas paredes. A tia-avó começou a culpar o menino, dizendo que o mesmo era que havia achado os cachorros na rua, e trouxe-os para dentro de casa. Ela contou que tinha apenas um animal.

O menino reclamou que não tinha amigos. E a tia-avó rebateu dizendo que ele tinha sim, e citou alguns nomes de meninos. Ela também disse que um amigo era algo que não podia se comprar, e que às vezes o menino pedia isso para ela.  

Começamos a ficar inquietos, e retornamos para frente da casa. Vários carrapatos, talvez assustados com a água, subiam pelas paredes.

Conversamos ali mesmo com o serviço de Zoonoses, e eles informaram que daqui uns dias iriam realizar uma dedetização na residência. Falamos em sacrificar alguns animais. O Zoonoses não realiza serviço de coleta de bichos, pelo que nos informaram. O menino nesse momento, e até a tia concordou com ele,  dizendo que não queria que nenhum dos cachorros fossem sacrificados. Que eles gostariam de doá-los.

Tentamos contato com uma ONG de proteção aos animais.    

Mães com medo dos filhos

Ontem em um encontro com mulheres no qual estamos participando, depois de discutirmos levemente sobre a solidão que nos assola nos dias atuais, um tema mais concreto e epidérmico foi debatido: a nossa prole.

Dona N., uma mulher que sempre estamos conversando, novamente, falou sobre a sua suprema dificuldade de comunicação com a filha. Essa filha tem necessidades especiais cognitivas, e pelo que Dona N. me contou, é um problema congênito. Sempre diz que a filha é muito rebelde. Outro aspecto que sempre relata, é a agressividade da adolescente com relação a ela: “ela diz que não sou mãe dela. Que eu sou preta, que não presto por isso, e que eu tenho mau cheiro.”. Também contou que esses dias, em dois episódios: dentro do ônibus, e no próprio posto de saúde, a filha “arrumou encrenca” com pessoas e saiu às tapas com outras mulheres. E que a filha, depois que conheceu algumas pessoas do espiritismo, vive falando que em outras vidas, Dona N. era sua filha. E que ela sofrera muito com Dona N. Ampliando sua história de sofrimento com os filhos, ainda, Dona N. demonstrou toda sua preocupação com seu outro filho, de 12 anos, que esse ano não está indo mais para escola. Esse filho, pelo que ela diz, e o principal cuidador de do pai, que está em precárias condições de saúde há muito tempo no hospital, internado.

Depois que Dona N. falou, uma senhora aparentando já ter seus quase 50 anos, começou uma história, não tão menos no mínimo, complexa e doravante trágica. Disse que estava morando na casa da irmã (que também estava participando do encontro com a filha pequena no colo). Que na verdade morava no bairro ao lado, mas que devido o filho ter colocado fogo em sua casa, ela mudou-se, e estava passando um tempo na casa da irmã.

Falou que tinha 02 filhos, um filho e uma filha. E que em sua casa morava ela, o esposo que “ela cuida”, pois tem algum tipo de deficiência, e/ou alguma “doença incapacitante”, e o filho de 25 anos.

Contou que esse filho é usuário de drogas, e que esses dias, destruiu a casa dela. Disse que ele também retirou as janelas, vendeu o que tinha dentro da casa, e o que restou, ele ainda destruiu. Contou que foi a maior confusão na rua. A irmã completou dizendo, que quem duvidasse, que passasse em frente a casa da irmã, e visse o estrago que estava a casa.

Na hora eu pensei nessa “espécie de raiva”, que esse filho deve ter de sua mãe. Uma vez eu ouvi um relato de um outro filho, que arrancou o vaso sanitário da casa para levar para a “boca de fumo”, conseguindo uma ou duas pedras de crack. Não é que o cara da boca de fumo iria vender um vaso sanitário, mas é aquele negócio de “manter o vício” do sujeito, eu acho. Já constatei relatos verídicos de mães dizendo que filhos pegam até mesmo o saco de arroz do sacolão, ou o botijão de gás, ou as duas únicas cadeiras que existem na casa, para trocarem por crack. Lembrei-me daquele filme, “Réquiem para um Sonho”, em que o rapaz, viciado em heroína (senão me engano), também rouba a única TV de sua casa (onde residem ele e a mãe), numa espécie de conluio silencioso que fez com mãe, para que ela lhe dê dinheiro “indiretamente”, pois depois do “furto”, a mãe sempre ia ao traficante de drogas, não sei quantas vezes, recomprar essa mesma TV. Mas botar fogo, e destruir a casa toda, é algo inimaginável. Sempre.

A irmã dessa mãe também disse que a casa estava com vários furos de balas na parede da frente, pois um vizinho depois de uma briga que teve com o sobrinho, no mesmo dia do acontecido, atentou com vários disparos em direção a casa. Disseram que o vizinho foi preso, pois outros vizinhos chamaram a polícia, mas que agora ele já estava solto.

Perguntaram se depois que o filho fizera tudo isso com a casa, se ela não havia chamado à polícia. E eu também pensei que aquela história era um caso de polícia. A mãe disse sem parecer saber sobre polícia, que os vizinhos novamente haviam chamado a polícia também.

E onde o filho estava? O que aconteceu com ele? Ela disse que ele estava “andando por aí”. Disse que no dia do acontecido, os Bombeiros foram até o local, e levaram o filho dela para o Hospital Psiquiátrico. Mas de lá ele já havia fugido. A mãe completou dizendo que “lá eles amarram as pessoas com algumas faixas bem finas, ou seja, a pessoa pode desamarrar a qualquer momento e ir fugir.”

A irmã da mãe ainda disse que o sobrinho ameaçou a irmã de morte, na frente de todo mundo.

E novamente atentou a todos, para quem quisesse ver a casa, que ela ficava na Rua da “Compaixão” (é um nome parecido). Outra participante ironizou, dizendo que de compaixão essa rua não tinha nada, pois era uma das mais violentas do bairro, e com vários episódios de violência em sua história. “Já morreu muita gente matada ali.”

Outra participante, depois, também começou a falar sobre seus dois filhos. Disse que hoje eles já estão adultos, mas que quando mais novos, deram muito trabalho para ela. Disse que o filho, também, na adolescência, esteve envolvido com drogas. E aponta para a causa do filho ter passado por essa problemática, foi devido à influência dos amigos. E que quando surgiu esse problema com o filho, mudou-se por dois anos com ele e o restante da família, para uma chácara. Ela falou sobre um ponto de encontro no bairro, dizendo que ali era “o ponto de encontro para a perdição da rapaziada”. Relatou que muitas vezes acordava no meio da noite, e que não vendo os filhos na cama, saia com a sua bicicleta de madrugada, atrás deles. Por fim, disse que também tinha medo do filho. Ele ainda vive em sua casa. Disse que ele não faz mais uso de drogas. Mas sente um certo medo dele. Não lembro de entender se ela tinha um medo dele ter uma recaída nas drogas, ou dela ter medo por ele morar em sua casa, e talvez fazer alguma coisa violenta/agressiva com ela, como o que havia sido relatado pela outra mãe. Pode ser que seja das duas coisas.

Depois de findado o café do encontro, a mãe que teve a casa incendiada pelo filho foi conversar com a Ass. Social, em sua sala.

Um comentário de um estudante universitário, que estava participando do encontro, foi: “essas coisas que a gente escutou são muito distante da gente. É coisa que apenas vemos acontecer bem longe da nossa realidade”.

terça-feira, 19 de março de 2013

A MULHER QUE ALIMENTAVA - Eliane Brum

A narrativa da excelente jornalista Eliane Brum, retratando o final da vida de uma Batalhadora, Ailce de Oliveira, funcionário pública, merendeira de uma escola por mais de 25 anos.
 
14/08/2008 15:55

A mulher que alimentava

ÉPOCA acompanhou os últimos 115 dias da vida da merendeira Ailce de Oliveira Souza, morta há um mês
Eliane Brum e Marcelo Min (fotos)
 
SEM TEMPO
A doença surpreendeu Ailce quando ela acreditava estar mais perto de seus sonhos. Como a maioria de nós, ela descobriu que adiara demais
É tão estranho”, ela diz. “Passei a vida inteira batendo ponto, com horário pra tudo. Quando me aposentei, arranquei o relógio do pulso e joguei fora. Finalmente eu seria livre. Aí apareceu essa doença. Quando tive tempo, descobri que meu tempo tinha acabado”.
Ela está intrigada com essa traição da vida. Sua expressão é de perplexidade. Ailce de Oliveira Souza não é uma filósofa, é uma merendeira de escola. Toda sua vida havia sido de uma concretude às vezes brutal. E agora a morte chegava exigindo metáforas.
Lá fora faz sol, e os vizinhos vivem na primeira parte do poema de Manuel Bandeira. Quando o enterro passou/Os homens que se achavam no café/Tiraram o chapéu maquinalmente/Saudavam o morto distraídos/Estavam todos voltados para a vida/Absortos na vida/Confiantes na vida. Lá dentro, sentadas uma diante da outra, eu e ela vivemos o segundo ato. Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado/Olhando o esquife longamente/Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade/Que a vida é traição.
Ailce nunca deixou de se sentir traída por “essa doença”, como se expressa na maior parte das vezes, ou “o tumor”. Não pronuncia a palavra câncer. Quando nos conhecemos, em 26 de março, faz quase um ano que sua pele amarelara e ela se enchera de náuseas. Ailce se revolta contra Deus. É dele a traição.
Seu câncer é uma pedra no meio do caminho das vias biliares. O tumor obstrui a passagem e, sem ter por onde escoar, a bile é lançada no sangue, e a deixa inteira amarela. Quando ganha essa cor solar, Ailce ainda não tem 66 anos. E acredita viver o melhor tempo de sua vida. “Sem filhos, sem marido, aposentada, livre”, diz. Ela planeja conhecer as obras de Aleijadinho, nas cidades históricas de Minas Gerais, e a Espanha dos filmes de Sarita Montiel. Quando a paisagem passa veloz pela janela do ônibus, sente que está indo para um lugar que sempre quis, não importa o destino. “Você já reparou como a gente muda quando viaja? Parece que me liberto de tudo”.
Ailce anda de ônibus por todo lado, dança em bailes da terceira idade, vive um romance com um homem mais jovem. “Você acredita que, quanto mais eu danço, mais tenho vontade de dançar?” Ela dança sozinha pela liberdade de rodopiar pelo salão sem que ninguém a conduza. Sempre quis conduzir ela mesma sua vida. Escolhe seus passos no salão de baile enquanto suas células a traem no silêncio de seu corpo.
Se câncer é a palavra que não diz, liberdade é a palavra que repete. Ailce está presa, literalmente. Sua vida depende de duas mangueiras fincadas dentro dela. Elas drenam a bile para fora de seu corpo. O líquido amarelo escoa em dois recipientes de plástico que ela carrega numa sacola de supermercado nas andanças dentro de casa, numa bolsa decorada com as princesas da Disney quando passeia. Um dia um segurança olha feio para sua bolsa achando que ela está furtando produtos da prateleira. E devagar Ailce vai deixando de sair. Desliga a música dentro de casa. E não dança mais.
Estar presa a horroriza. Passou a vida esperneando para escapar de uma prisão metafórica. E agora está amarrada não aos fios invisíveis que a ligam às convenções do mundo, como a todos nós, mas às duas mangueiras de material sintético que drenam o rio poluído de seu interior. “A gente não vale nada. Olha o que sai de mim”.
Quando entrou na sala de cirurgia, achava que faria apenas um exame complicado. “Lembro que o médico cantava pra me acalmar. Não lembro a música. Eu dormi com a anestesia e quando voltei estava numa maca, no corredor. Eu sentia um frio muito grande. Tremia. Vi os drenos e descobri que estava presa”.
Ela logo descobre que sou um terceiro fio na vida dela. Ela nunca tinha falado muito de si mesma. Desse dreno de palavras ela gosta. “A gente fica guardando coisas por toda a vida. Quando eu falo, parece que elas vão se soltando dentro de mim. Me liberto”.
Ailce é uma mulher comum. Nunca pensou que sua vida dá um romance. Nem mesmo uma reportagem. Ela não alcançou o Pico do Everest, nem desvendou a espiral do DNA ou compôs uma sinfonia. Também não queimou sutiã em praça pública. Ailce viveu.
Na narrativa de sua história, ela começa a decifrar pequenas singularidades despercebidas numa existência em que o tempo foi devorado em turnos de trabalho. Ailce percebe que não há como dar sentido à morte, mas ela pode dar sentido à vida. Só assim poderá suportar a superfície fria de um fim que já toca com as mãos. Para viver tão perto da morte, ela precisa adivinhar a tessitura da vida. Do contrário, só lhe restam aquelas mangueiras sintéticas.
Ailce sempre desejou se “libertar” e, como muitos de nós, nunca conseguiu definir muito bem de quê. “Eu gosto de ir pra frente”, diz. Descobre então que terá de enfrentar não a Medicina, mas a Poesia: Temos, todos que vivemos/Uma vida que é vivida/E outra vida que é pensada/E a única vida que temos é essa que é dividida/Entre a verdadeira e a errada.
Intuitivamente ela sabe que sua sanidade depende de enfrentar o caos da vida, mais do que o da morte, que é só um ponto final em geral improvisado. E então, com esforço e não sem sofrimento, ela poderá se reconciliar com os pontos soltos, os padrões interrompidos, as costuras tortas da trama do vivido. Para ela, o mais difícil é aceitar que alguns bordados ficarão por fazer. Ou, pior, serão tecidos sem ela.
Ela é a quarta filha de nove, a penúltima com o nome iniciando por “a”. Ailton, Amilton, Adailton, Ailce... “Eu sentia falta de espaço, de um canto só meu”. No final de sua vida, ela tem não apenas um canto, mas uma casa só sua. Ampla, dois andares, é a encarnação em concreto de seus esforços. Pela casa ela sacrificou muito. Mas quando adoeceu descobriu que a casa transformara-se numa prisão. Agora quer se libertar da casa. Mas, a cada semana, a cada mês, seu espaço encolhe. Primeiro, o portão da rua marca a fronteira de seu mundo. Depois, a porta da frente. Em seguida, seu território é circunscrito ao 2º andar. E, por fim, tudo o que tem é o quarto.
Ailce então fecha a janela na cara do sol e não sai mais da cama. Nessa época, ela descobre que é possível viver na memória. E refaz o itinerário de sua vida. Ela nascera em São Romão, cidadezinha mineira forjada em histórias de sangue. E sua infância cabia num vão entre a largueza do São Francisco e um riacho de nome Escuro, que banhava a fazenda da família. Crescera cercada de água por todos os lados, mas tinha medo de nadar. Seu pai havia sido capitão de porto, delegado de polícia, juiz de paz. Sua mãe fora uma mulher forte, que fugira do primeiro casamento, aos 13 anos, com a pequena Maria pela mão. Mantinha a casa e os filhos asseados, as toalhas bordadas bem alvas, a cozinha mergulhada numa névoa de vapores perfumados.
Essa memória olfativa feita de temperos, toicinho e doçura engendrada nas panelas da mãe acompanhou Ailce por toda a vida. Perto da morte tornam-se mais vivas. Quando as toxinas liberadas pelo tumor envenenam o corpo, e ela enjoa de tudo, lembra o feijão gordo, o pão de queijo, os biscoitos de polvilho. E sua boca castigada é afagada por uma saliva de infância. Ailce, que já não consegue comer, lambuza-se em banquetes de lembranças. Mais tarde, 18 quilos mais magra, e já sem forças para andar até o banheiro, ela ainda suspira por uma broa de dona Santa.
Ailce deixou a casa dos pais aos 18 anos. Diante de suas ânsias de mulher jovem, a cidade criara paredes. “Eu queria conhecer coisas novas”, diz. “Ser independente”. Escorregou no mapa e desembarcou em Guarulhos, São Paulo, na casa de um irmão. E de novo sentiu-se confinada. Mudara de geografia, mas não de sina, e para ela os 60 não foram anos loucos. Costureira, moça de fábrica, entre linhas, agulhas e bobinas teve as primeiras revelações sobre sexo, quando ao voltar da lua-de-mel uma colega relatou que não só doía como jorrava um líquido branco do membro do homem. Ailce arquivou a informação para não fazer cara de surpresa quando sua hora chegasse.
Nessa época, Ailce se apaixonou por um rapaz de olhos verdes, e ela, que sempre foi muito prática, deu para devaneios. Espremida na cama de armar que dividia com uma amiga, falava de amor e ria à toa. No sábado, anunciava: “Vamos ao baile de vestido novo”. Costurava então uma saia bem rodada para cada uma, orgulhosa da cintura de 54 centímetros. Muito mais tarde, Ailce vai esquecer os fios sintéticos fincados em seu fígado ao lembrar de seu vestido de organza azul. Mas o moço bonito não queria saber de casamento, e Ailce chaveou o coração.
Desde aqueles dias, Ailce jamais deixou de sair de casa impecável. “Ailce vem à consulta muito bonita, cabelos pintados, brincos, salto alto”, escreve a médica Maria Goretti Maciel no prontuário da Enfermaria de Cuidados Paliativos do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, em 2 de abril. Mais de uma vez Ailce entra no hospital com as pernas bambas, mas sobre saltos. E, quando ainda não pronuncia a palavra morte, usa a metáfora “cair”. “Eu não aceito cair”.
"Você acredita que, quanto mais eu danço, mais sinto vontade de dançar?"
Aos 23 anos, ela tomou uma decisão pragmática. Casou-se com um operário chamado Jaime, rapaz alinhado que não botava a cabeça fora de casa sem brilhantina, sem um lustro nos sapatos. “Eu queria ter uma casa só minha”, diz Ailce. “Ele era honesto, trabalhador, andava de terno e gravata, tinha uma família boa. Casei”. Ailce não adivinhou que um moço tão distinto teria ganas de beber além da conta. Nem que uma parte do futuro seria gasta nas tribulações de mulher de alcoólatra. No caso dela sina ainda mais triste porque nada tinha da originalidade que planejara para si. Assinou o livro do cartório convencida de que romance era incompatível com a vida adulta. E essa foi sua primeira capitulação diante de seus sonhos.
 
DO FIM
Ailce no quintal de sua casa, em abril, um ano depois dos primeiros sintomas do câncer
Esse marido “era da raça de espanhol, tinha sangue quente”. E esse fogo acabou incinerando Ailce, que já casou com o primeiro filho aconchegado numa curva da barriga. Só mais tarde ela soube que havia um nome para o que sentiu quando Marcos nasceu de cesariana. “Eu não queria aquela vida, queria uma vida diferente”, ela diz. “Então rejeitei”. Ailce chorou, envergonhada de seus pensamentos. Só décadas depois, perdoou a si mesma ao descobrir que tivera uma depressão pós-parto, comum a muitas mulheres, e não uma crise existencial em que questionava o que fora feito de suas grandes esperanças. Quando as primeiras semanas viraram meses, foi tomada por um amor tão grande por aquele filho que, perto do fim, ainda acredita que ninguém cuida tão bem dele quanto ela.
Quando a segunda vida pediu passagem dentro dela, Ailce chorou de novo. O marido bebera demais e escalara a cama para deitar-se com ela. Ailce agarrou um cobertor e enrolou-se no chão. Sentia-se presa numa teia que não planejara tecer. “Chorei. Não era essa vida que eu queria pra mim”, diz. “Pensei então que meu bebê poderia ser uma menina e me acalmei”. Luciane nasceu miúda, alérgica a leite e com o gênio forte das mulheres da família. Menina estranha, desde os 7 anos escondia-se na cama da mãe para não ser assaltada por coisas do outro mundo.
Esses dois filhos dão a Ailce as duas pontas com as quais ela amarra o final de sua vida. Marcos, funcionário de escola como ela, cuida das feridas do corpo. Aos 42 anos, é um homem quieto, que tranca as emoções em algum lugar entre o coração e o estômago. Ao entrar numa sala, ocupa um canto. Quando a mãe adoece, ele aprende a fazer os curativos e a limpar os drenos, administra seus remédios e prepara o café-da-manhã. Quando ela se torna mais fraca, passa a lhe dar banho. “Não fica com vergonha da mãe”, diz Ailce. “A mãe também deu muito banho em você”. É esse filho silencioso, com a coragem de enfrentar a carne da mãe, que transforma o horror da doença num carinho cotidiano. Pelo toque, ele torna possível para Ailce suportar um corpo em que a bile escorre no lado externo.
Ao igualar-se a um corpo infantil para vencer a interdição entre mãe e filho, Ailce assinala a perda do feminino nela. “O tumor me tirou tudo. Eu perdi peito, bunda, cintura, tudo”, diz. Ailce agora se preocupa cada vez menos com a nudez de um corpo que a trai de todas as maneiras possíveis. E que parece pertencer somente à doença.
A figura miúda de Luciane está sempre no centro. Como a mãe, ela encontra sentido na ação. Depois de crescida, apaziguou-se com o sobrenatural virando mãe-de-santo no candomblé. Luciane vasculhou a história da família e descobriu que a avó materna era cigana. No Rio de Janeiro, onde vive com o marido, Jorge, faz uma festa anual em homenagem a uma ancestral chamada Carmen que fala espanhol pela sua boca. Ailce aceita o mistério. E ela, que nunca aprendeu espanhol, conversa com a cigana como uma velha amiga.
Luciane dá à mãe essa dimensão mística da vida. Pelas mãos dessa filha ela encontra significados para um estar no mundo que para ela foi sempre tão concreto. Luciane lhe dá uma história que avança além da sua, e lhe dá um lugar nessa história. Perto do fim, sua pequena vida faz sentido numa trama maior. A cada novembro é ela quem acende a fogueira da ancestralidade, vestindo saias coloridas, e sua figura se reveste de uma solenidade que resiste ao comezinho de uma vida de cartão de ponto. Depois, ela rodopia ao som do violino cigano e ali, finalmente, apalpa com os pés no ar uma liberdade que até então ela só pressentira. E, por ter um passado antes do nascimento, terá um futuro depois da morte.
Do meu lugar de observadora de um quadro familiar, ora na cena, ora fora dela, me pergunto se esses filhos, cada um a seu modo, compreendem o tamanho do que dão à mãe. Ailce precisa do que cada um deles pode dar, até o fim.
Ela só descobriu o tumor quando foi enviada para a Enfermaria de Cuidados Paliativos, depois de enfrentar sete meses de tratamento em outro setor do hospital. Ailce suspeitava do diagnóstico, mas preferia não ter certeza. Na Enfermaria, a verdade a encurrala. “Antes, os médicos falavam lá na língua deles. Eu escutava a palavra tumor, mas não perguntava. No Paliativos, me contaram que eu tinha um tumor num lugar que não podia ser mexido. Fizeram um desenho. Eu pensei que faria quimioterapia e ficaria boa. Então disseram que eu não poderia fazer. Me revoltei. Achei que Deus não existia. Eu sempre quis ir além e agora não posso mais ir a lugar algum”.
Ailce conta – e imediatamente “esquece” o diagnóstico. Nas visitas seguintes, ela me testa: “Acho que não tem nada dentro de mim”. Ela deseja muito que eu confirme seu pensamento mágico. Nessas horas, eu sinto dor na garganta, pelas palavras que não posso pronunciar, mas que gostaria muito de dizer.
Incapaz de enfrentar meu silêncio, ela contemporiza. “Ainda bem que eu não tenho dor”. Lourdes, que limpa a casa, cozinha e cuida dela, a socorre: “Você não tem câncer. Eu tinha uma tia com câncer e ela gritava de dor. E tinha um cheiro tão horrível que ninguém chegava perto. Você não tem cheiro nenhum”. São duas mulheres sozinhas na casa – e uma delas tem uma sentença de morte. Elas me observam com o canto do olho, temerosas de que eu desmanche com palavras o frágil equilíbrio de seu milagre.
É início de abril, e Ailce está feliz porque o apetite voltou. É resultado do tratamento paliativo, que ameniza os sintomas. “Repeti o prato na hora do almoço”, anuncia. Ailce mima suas orquídeas, conversa com as plantas, comparece às festas de família, quer comprar roupas novas. Suspira por atos banais, mas que agora se enchem de raridades: um banho de chuveiro sem preocupação com os fios; dormir de bruços, que já não pode mais. Ailce vive dias ensolarados. Está comendo, está curada.
E eu também preciso comer. Ela não permite que eu saia de sua casa sem antes repetir o bolo. Criada no interior, esse é um ritual que compreendo. Só mais tarde percebo que, para Ailce, oferecer comida é a chave de uma vida. Ela tornou-se merendeira de escola depois de passar num concurso público com nota 9,5.   Por 27 anos ela alimentou crianças carentes. Na segunda-feira, acolhia-as com uma caneca de leite, para que tivessem forças de entrar na sala de aula. Era dela a missão de mantê-las vivas, era ela quem operava o milagre de fazer crianças quase desmaiadas correr pelo pátio.
Ailce adorava isso. Seu pai queria pagar seus estudos de professora, ela não quis. Queria ser enfermeira, não conseguiu. Encher a barriga de crianças famintas emprestava grandeza a sua vida. “Nunca cheguei atrasada, trabalhava doente porque precisavam de mim. Eu fazia sopa, leite com cacau, sagu. Às vezes, fazia seis caldeirões de 40 litros. E as crianças comiam tudo, com tanto gosto. Ficavam sábado e domingo sem se alimentar e na segunda-feira muitas desmaiavam. Eu não podia fazer nada fora da escola, mas dentro elas comiam à vontade”.
Antes de ser enviada para a Enfermaria de Cuidados Paliativos, um médico, sem coragem de contar a ela a verdade, lhe disse: “Você precisa comer bastante para ganhar peso. Então, quando estiver mais forte, vamos operá-la”. Ele não sabe o que fez. Comer, ficar forte e melhorar é o mantra de Ailce. Entre um médico que lhe acenou com a possibilidade de cura e todos os outros que só têm a verdade para dar, é óbvio que ela acredita no primeiro.
Em meados de maio, Ailce piora. Os enjôos retornam, a comida não passa na garganta. A equipe de visita domiciliar do Serviço de Cuidados Paliativos é cada vez mais assídua. Desentope os drenos, faz curativos, resolve o que é possível para que Ailce não gaste seus dias no hospital. Os medicamentos são substituídos em consultas ambulatoriais, mas ela está numa fase crítica. O desespero por não conseguir comer a consome, pede às médicas que lhe dêem remédio “para abrir o apetite”. Mas nenhuma comida é preparada do jeito que ela instruiu, não há tempero que não se torne amargo em sua boca. Culpa então a mulher que ocupa seu lugar na cozinha por não conseguir fazer por ela o que passou a vida fazendo pelas crianças desmaiadas. Na intimidade da casa é um tempo de grandes dramas para as duas mulheres. Ailce está num lugar insuportável: ela, que sempre alimentou a todos, morrerá porque não consegue comer.
Ailce mede 1,40 metro, mas briga como se tivesse tamanho de jogadora de vôlei. Em junho, é difícil para ela botar uma perna na frente da outra. Mas caminha. Tremendo, cheia de fúria. “Tira a mão do meu braço que eu ando sozinha”, diz. “Mas a senhora cai”, preocupa-se a filha. “Não caio”. A filha tenta lhe dar café. Ela fecha a boca. “Eu mesma tenho de tomar”. Derruba, mas é ela quem segura a xícara. Pergunto porque isso é tão importante. “Eu tenho de ser eu”, diz ela.
Nessa época, Ailce beira o impossível: tinha “esquecido” a doença, mas a doença não a esquecera. Culpa os médicos porque não vê “progresso”. A família cogita consultar outros profissionais. Em seguida, desiste. Teme o que ouvirá no final da consulta.
Então a tempestade chegou. Na manhã de 19 de junho, depois de uma noite de sonhos desencontrados, Ailce anuncia que quer morrer. Não acredito que queira. O que está dizendo, pelo avesso, é que quer viver. Do jeito dela, pede ajuda. Nos encontramos na lanchonete do hospital. Ela tem os olhos cheios de lágrimas, as mãos tremem. Duas desconhecidas lhe falam de Deus. Invocam o “deus do impossível”.
À espera da consulta no ambulatório, Ailce revolta-se: “Quero uma definição. Não vejo melhora. Por que não amarram isso dentro de mim?”. Ailce não só esquecera o que os médicos lhe explicaram muito tempo antes, como esquecera também o que havia contado a mim menos de dois meses atrás. Pela primeira vez, interfiro: “Fale tudo o que está sentindo nessa consulta. Tire todas as suas dúvidas”.
"A história que você está escrevendo sobre mim está chegando ao fim?"
A médica abraça Ailce com carinho. O sol atravessa a janela e bate diretamente nas duas mulheres sentadas uma diante da outra, iluminadas como num palco. Ailce começa: “Eu não sei o que eu tenho”. Goretti Maciel responde: “Você não lembra a nossa primeira conversa?”. Ailce não lembra. “Eu lhe contei que tinha uma pedra no meio do caminho.” Ailce ouve a explicação de novo – e de novo seus olhos acompanham a mão da médica riscando no papel a arquitetura da morte dentro dela. Ela diz: “Mas não dá para pular aqui por cima e juntar aqui?”. Goretti diz: “Infelizmente não dá para fazer um viaduto”. Dessa vez, Ailce não recua: “Então não tem cura? Então isso vai até quando...”. E interrompe a frase.
Toca o celular da médica. A música é a trilha do filme Missão: Impossível. Ela desliga.
“Paliativo vem de palium, que quer dizer manto”, diz a médica. “É o que a gente faz aqui: jogamos um manto sobre a doença. O tumor vai lançando toxinas pelo corpo e isso provoca sintomas. Os medicamentos disfarçam os sintomas. Mas um dia não vamos mais conseguir amenizá-los. Quando esse dia chegar, meu compromisso é que a gente nunca vai abandoná-la. Vamos cuidar de você até o fim.”
Ailce deixa o consultório ereta, os olhos secos. Está de salto alto. Dessa vez, se apóia no meu braço. Mas ainda é ela: “Será que se eu engordasse um pouco não daria para fazer cirurgia?”. Desta vez, me sinto autorizada a falar: “Ouvi tudo o que a médica disse. Não importa se a senhora está gorda ou magra. Não é culpa sua. O tumor é que está num lugar do qual não pode ser retirado”. Ela então me olha com a esquina do olho e diz: “Acho que já tinham me contado. Mas não dá pra lembrar de tudo”.
Em julho, Ailce não sai mais da cama, nem mesmo abre a janela. Mergulhada numa escuridão que não depende da rotação do planeta, ela prefere deixar o sol do lado de fora. Usa fraldas porque não alcança o banheiro, tem frio mesmo quando faz calor. Mas ainda conta histórias e não me deixa sair de sua casa sem repetir o bolo.
Na segunda-feira 14 de julho, seu quarto tem cheiro de morte. E seu corpo parece menor sobre a cama. “Meu tempo está acabando”, ela diz. E eu sei que é verdade porque ela parou de brigar. A revolta se extingue dentro dela, a voz se suaviza. Quando ela toma água, ainda segurando o copo, o gosto é amargo. Ela sempre temera a dor, e a dor havia chegado. “Estou ferida por dentro. Sinto cheiro de podre.”
Ailce descreve todas as mortes da família. Do pai, que morreu em casa, da mãe, no hospital, do marido, de doença de Chagas, do irmão, num acidente. Depois desse inventário do fim, ela conclui: “Agora sou eu que estou no finzinho”.
À noite, a dor aumenta. Ailce pede à filha que chame o Preto Velho. Quando a entidade que assume muitos nomes nas religiões afro-brasileiras se manifesta, pela boca de Luciane, Ailce pede: “Me leva. Nada mais me prende neste mundo”. O Preto Velho brinca com ela. “Não é tão fácil assim, minha filha. No céu tem fila. Vou ver se consigo uma vaguinha para você cuidar das crianças”. Nesse contrato místico, Preto Velho promete a Ailce que a levará ainda naquela semana.
Cenas do Viver
 
 
Ailce passou seus últimos meses circunscrita à casa que construiu com sacrifício. Às vezes, a casa se torna uma prisão, como na foto acima. Em outras, testemunha pequenas delicadezas, como nas duas fotos logo abaixo: a filha, Luciane, dança para a mãe num ritual cigano em sua homenagem, e Ailce cozinha para o único neto, Ramom
 

 
Cenas do Morrer

 
Em 14 de julho, Ailce percebeu que seu tempo tinha acabado. No dia seguinte, foi levada ao Hospital do Servidor Público Estadual para morrer sem dor na Enfermaria de Cuidados Paliativos. Na foto acima, seu filho, Marcos, mostra a imagem da mãe num espelho. Abaixo, parentes e amigos contam histórias de sua vida

Pensei muito em como descrever essa noite. Cheguei à conclusão que a morte é dela. Ailce tem uma fé bem ecumênica. Desde que adoecera, ela nunca recusou ajuda espiritual. Toda semana recebia hóstia de voluntárias católicas, e sempre abriu a porta para padre e pastor. Mas é quem ela chama de Preto Velho que a conforta na noite mais longa de sua vida. “Eu vou, mas volto”, diz. “Vou segurar sua mão e preparar um caminho de lírios pra você passar.   Nós estamos velhinhos. Empresto minha bengala e meu banquinho. Quando eu cansar, você levanta e eu sento. Quando você cansar, eu levanto e você senta. Seu corpo está doente, sua alma está limpa. Você é uma flor”.
Na manhã seguinte, Ailce despede-se de sua casa. Desce a escada carregada, seus pés estão descalços e não mais encostam no chão. Lourdes soluça. E promete fechar bem a porta. A papagaia já não come. E o cachorro Dunga, chorando, se esconde dentro da casinha. Na despedida da mulher que a habitava, a casa parece agonizar.
No hospital, Ailce me pede que arranque suas meias do pé. “Não gosto de me sentir presa”, afirma. Ela está morrendo e suas unhas estão pintadas de cor-de-rosa. Pergunta: “A história que você está escrevendo sobre mim está chegando ao fim?”. Eu me acovardo: “Não sei”. Seus olhos amarelos me perfuram. “Não sabe?” Eu minto: “Acho que não falta mais nada”. Ambas sabemos que falta a morte.
Eu preciso dizer: “E é uma vida bonita”. Ela pede confirmação: “Você acha?”. Eu asseguro: “A senhora brigou pelo que queria, criou seus filhos, construiu sua casa, matou a fome de tantas crianças. A senhora viveu”. Ela conclui: “E nunca pedi nada para ninguém”.
 
 
 
MORTE
Enquanto a filha lhe sussurra palavras de amor, ela fixa o olhar em sua última cena. Às 15h50 de 18 de julho, o tempo de Ailce acaba
Os remédios fazem efeito e ela escorrega para um sono tranqüilo. A médica Veruska Hatanaka esforça-se para que ela não sinta dor, mas que consiga se despedir. É uma arquitetura química delicada. Luciane tem 40 graus de febre, Marcos traz a mulher para se reconciliar com a sogra. Ailce pergunta pelo único neto, Ramom. Às vezes, acorda para pedir água e faz questão de segurar o copo. “A água está mais doce agora”, diz. Ailce já não come. E isso não mais a machuca. Mas, ao abrir os olhos, tarde da noite, ela pergunta se eu comi.
Na quarta e na quinta-feira, Ailce quase só dorme. Ao redor dela se alternam os irmãos, os vizinhos, os amigos. Eles contam histórias da vida dela. Seu irmão caçula coloca uma mão grande sobre seu rosto e chora: “Eu te amo muito. Você quer que eu traga um café para você?”. Ela abre os olhos, balbucia: “Eu também te amo”. E volta a dormir. “A gente dormia na mesma cama de armar, na cozinha”, conta uma amiga. “Eu namorava um rapaz que era a cara do Elvis Presley e ela namorava o Maurício, um loiro de olhos claros”. Ri e chora. “Meu pai era muito apaixonado por ela”, diz Luciane.
Uma fotografia desse momento mostra Ailce na cama e a família ao redor. Há um movimento em cada um deles, nela nenhum. Eles falam dela, mas ela não está lá. Ailce se retira do palco, e a vida de todos seguirá sem ela. Fragmentos de sua vida esvoaçam a seu redor em forma de lembranças enquanto ela morre. Mas Ailce ainda escuta. Abre os olhos sempre que alguém pronuncia o nome do neto. E, quando ficamos sozinhas, eu digo: “Muito obrigada por ter me contado sua história. Eu vou escrever uma história linda sobre sua vida. E nunca vou me esquecer de você”. Percebo então que ninguém confiara tanto em mim. Muitas vezes eu fui a única testemunha de sua vida. Eu escreveria sua história, e ela estaria morta.
Na sexta-feira 18 de julho, Ailce desperta depois do banho. Está inquieta. É difícil entender o que diz. Pede água, mas agora é preciso umedecer um pedaço de gaze e colocar entre seus lábios. Já não há movimento nos drenos, seu corpo está parando de funcionar. Ailce se contorce, começa a arrancar a roupa. Fica nua. No final da manhã, a médica Juliana Barros a liberta dos fios sintéticos de sua vida, agora inúteis. Ailce finalmente está livre.
Quando os filhos chegam, Ailce os reconhece. Ela esperava por eles. Então volta a dormir. Às 15h50 ela abre os olhos de repente. Está lúcida. Enquanto seus olhos erram pelo quarto, Luciane diz: “Vamos dançar, mãe. Vamos botar nossa roupa pra gente dançar. A senhora está linda vestida de cigana. Já curou, mãe. Não tenha medo, eu estou segurando a sua mão. Vou lhe ajudar a atravessar. Está todo mundo esperando pela senhora. Eu te amo tanto, mãe. Muito obrigada por tudo”.
A filha desenha com pétalas brancas o contorno do corpo da mãe. O olhar de Ailce é de infinita tristeza. Seus olhos vagam pelo quarto e se cravam na câmera. E sua respiração apaga devagar.

Fonte: http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/0,,EMI10410-15257,00-A+MULHER+QUE+ALIMENTAVA.html