terça-feira, 2 de abril de 2013

Algumas passagens da minha semana passada


A VERGONHA DAS GESTANTES

Conversei com algumas gestantes. Entre elas, uma de 17 anos, e outra de 20. Elas me retrataram uma cena que achei muito incômoda, relacionada a evasão escolar.

Estávamos conversando sobre a relação delas com a família, com o marido, namorado, com os amigos.... em casa...

Sabemos que é muito importante um apoio tanto emocional, como social, ainda mais em se falando de mães jovens, algumas adolescentes.

Elas começaram dizendo que depois da gravidez, os amigos, “sumiram”.

Sobre a escola, a gestante com 20 anos, disse que não terminou o segundo grau escolar. E disse que desistiu de estudar esse ano. Que até pensou em voltar a estudar, e que frequentou algumas aulas no início do ano letivo. Mas abandonou, pois disse ter sentido muita vergonha na escola.

Quis saber mais sobre essa “vergonha”. Ela disse que todo mundo ficava olhando para ela. Que principalmente os professores ficavam com uma “cara estranha”, reparando, comentando, sempre em sua condição de gestante. “Era como se eu fosse o mau exemplo”.

Essa gestante, disse também que não tinha nenhum apoio de sua família. Que os pais não “aceitaram” sua gravidez. Que ela até se mudou para a casa do namorado, e que agora, depois de meses, ainda estava em fase de adaptação à casa da sogra.

A outra gestante, a de 17 anos, disse que também sentiu essa mesma “vergonha” na escola. Mas mesmo assim, não deixou de estudar. Ela está no terceiro ano do segundo grau. Sobre a vergonha, citou: “na aula de biologia, parece que todos olham para mim, com se eu fosse especialista no assunto de reprodução humana, principalmente o professor.” Ela ao contrário da primeira gestante, contou que seus pais, a família, e principalmente a mãe, está dando muito apoio emocional, nessa fase nova de sua vida.

 

“ESTOU LUTANDO O DIA TODO PARA FUMAR SÓ TRÊS CIGARROS.”

Essa frase foi dita por uma senhora, que é dependente de cigarro. Ela fumava mais que uma carteira diariamente, e agora, em tratamento para parar de fumar, disse estar conseguindo reduzir bastante, a quantidade de cigarros fumados por dia.

A maneira que ela falou, soou muito forte para mim.

 “lutando o dia todo”... Eu entendi que naquele momento da vida daquela senhora, quase não devia existir nada além do cigarro. E fiquei divagando: que grande dimensão é essa que uma substância toma na vida de uma pessoa, a ponto dela dar por entender não ter mais nada para o que se pensar, além da própria substância?  O que será que existe para ela “pensar”, ou outras lutas para enfrentar, além do cigarro? Existiriam? Ou o contrário? Existiria um monte de outras coisas na vida, como problemas, e ela estaria focalizando apenas o cigarro?

 

GRAVAÇÕES TELEFÔNICAS DENTRO DO CONSULTÓRIO

Esses dias escutando uma conversa entre dois médicos no PSF, uma deles alertou o outro:

- Agora eles (a população) estão entrando para a consulta com o celular ligado. Eu não deixo mais a pessoa na consulta entrar com o celular. Eles querem gravar o que a gente fala.  Para a população tudo é motivo para depois reclamarem para a Televisão...

 

“SOLIDÃO NO FUNDO DA AGULHA”
"Solidão no Fundo da Agulha" é uma expressão que eu escutei o Loyola Brandão falar, relacionado ao título do seu novo livro. Achei lindo.

Esses dias, fomos participar de um café da tarde, na casa de um maravilhoso casal. Ele tem já seus 94 anos. Ela, 87.

No café, várias pessoas da rua também participaram. Havia uma senhorinha de 104 anos. E o mais impressionante: com um fino senso de humor intacto (apesar de quase não mais escutar). Quando fui pedir para tirar uma foto dela, ela me respondeu: “quem você quer assustar?”.

Nesse café, se formos indelicadamente somar as idades, dos que ali se faziam presente, havia muito mais que mil anos...

Um comentário de outra senhora quando chegando, foi abraçar a vizinha: “nossa, deve fazer uns 5 anos que não a vejo. Nós somos vizinhas de fundo...”

O assunto que surgiu foi a Insônia.

Uma senhora disse que quando está na sala, assistindo TV, sente tanto sono que até adormece. Mas que quando vai para cama, perde totalmente o sono. A filha disse: “então vamos voltar a TV para o seu quarto mamãe”.

Uma senhora fez a relação de sua insônia (“vejo o sol se pôr e o sol nascer, quase todos os dias”), com os vários problemas diários que vivencia, como: ter que cuidar de sua casa, cuidar de uma neta e do marido que está acamado...

Diferentemente, um senhor disse que não adiantava não dormir devido aos seus problemas, pois não se resolveriam se ele ficasse acordado...

Outra senhora disse que quando perde o sono, levanta-se da cama, e vai arrumar as gavetas do seu guarda-roupa, ou do armário da cozinha.

Outra dona, falou sobre a fase difícil, de depressão e insônia, que passou, depois do falecimento da filha. A filha faleceu com 71 anos.

Por fim, ainda apareceu um senhor, dizendo que adora dormir de barriga cheia, e dorme muito gostoso, quando em dia de festa, toma uma “cervejinha”. Ele mostrou para nós que durante o dia, na claridade, faz tricô.

Eu pensei comigo que naquela rua, deveria existir alguma coisa na água que as pessoas bebiam. Para mim era um lugar especial. Existindo tantas pessoas idosas e com tanta vitalidade.

Esse “café da tarde” desta vez aconteceu no fundo de uma residência, embaixo de uma “ramada” linda, que cobre todo um espaço da varanda. Um lugar aconchegante, arejado, tranquilo, simples, cheio de plantas, flores e até algumas galinhas.


Tirei uma foto, retratando uma imagem bem a “mania” Manoel de Barros: a garrafa pet que virou uma luminária.

 

segunda-feira, 1 de abril de 2013

Lion Man

Lion Man

 

E se fosse pra ter medo dessa estrada
Eu não estaria há tanto tempo nessa caminhada
Artista independente leva no peito a responsa, tiozão
E não vem dizer que não
Um lance, uma passagem, o tabuleiro causa medo
O teu olhar é o desenho do desespero, e já era!
Tua rainha tá ciscando, já era!
Vai caí o rei

Vamos às atividades do dia:
Lavar os copos, contar os corpos e sorrir
A essa morna rebeldia

Só os loco
O Criolo qué colá pra somá
Sempre foi assim, ã! o que vivi
Acho melhor não desacreditar, fi
Os muleque é novim e faz um dinheiro sim

Uma mente moderna, porém mal acabada
É o ser humano, o egoísmo e uma draga
Pátria amada, o que oferece aos teus filhos sofridos
Dignidade ou jazigos?

O cordeiro vira lobo, e o lobo tem seu ofício
É a uva, o trigo, a pasta e o orificio
E quem fornece a brisa? (Bééééé)
Se fortalece no punhado de desgraçados mal-amados
Que só querem matar a fome

E agora, quem é mais ou menos homem?
Irmãos, na pior situação
MC bom é mais que Photoshop, refrão

E já era!
Sua rainha tá ciscando
Já era!
O país tá no abandono
Já era!
O planeta tá morrendo
Já era!
Vai caí o rei

Retomando às atividades do dia:
Lavar os copos, contar os corpos e sorrir
A essa morna rebeldia

Só os loco
O Criolo qué colá pra somá
Sempre foi assim, ã! o que vivi
Acho melhor não desacreditar, fi
Os muleque é novim e faz um dinheiro sim

Abandonado cão, sozinho na multidão
A solidão no coração de alguém
Paz para os meus irmãos
Seguirem nesse mundão
Criolo no estilo Lion Man

Caipira Picando Fumo (1893) - Almeida Junior


Te vas? No.


Blues da Piedade

Blues da Piedade

 
 

Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas

Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm

Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia

Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

Quero cantar só para as pessoas fracas
Que tão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça

Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade

Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem

RELATO DO MEU PRIMEIRO DIA DE CURSO

Sempre quando eu chego à Universidade, eu tenho tido ultimamente, um misto de muitas emoções. É como aquele negócio: fico entre o riso e o choro. Muitas coisas passam por minha cabeça, pelo meu ser. Riso, porque é um lugar lindo, cheio de verde. Riso, porque é um lugar de conhecimento, de livros, de ideias, professores, de “vanguarda”. Riso, porque essa “ponte” bonita, entre o serviço/universidade, está novamente sendo construída. Choro, porque sinto saudade de uma época boa, que é a nossa graduação. Choro porque fico pensando: até quando, eu ainda vou ter que carregar essa mochila nas costas (como na época da graduação), pesada por vezes, para entender melhor, uma realidade do qual, já fiquei anos, na graduação estudando. E novamente, entro no mesmo lugar onde me graduei, para novamente buscar “mais” conhecimento. Até quando? Fico pensando... E qual é o sentido disso? É ter mais um diploma? É ter mais reconhecimento? De quem? Financeiro? Da satisfação de um bom atendimento, de uma boa prática? E vem aquele pessimismo: as coisas não vão mudar... Continuo caminhando por entre as árvores da Universidade, e entro na sala de aula. Tudo isso tudo junto, e muitas mais coisas. Tudo misturado.

Depois, no auditório, um monte de gente reunida. Gente dos 4 cantos do estado. Gente também como eu, querendo participar de um curso em saúde da família. Fico pensando no escândalo do Hospital Universitário, que está logo ali, a poucos metros. Fico pensando na própria situação de saúde pública do município, com várias polêmicas, denúncias, corrupção. Quase não estava saindo da minha cabeça esse assunto. Indignado. Fico pensando se alguém, se algumas das autoridades, falará sobre o assunto, se dará alguma explicação. Se algum palestrante citará algum caso. Fará algum paralelo. Ao menos alguma coisa.

No telão do salão, passando animais do Pantanal. Garça. Capivara. Rios. Matas. Umbrais. E música de Almir Sater. Acho que ninguém falará de nada mesmo.

Na mesa de autoridades, o representante do Reitor, e o coordenador do curso de medicina. Ninguém falou nenhum “a” sobre o escândalo daquela instituição que está “logo ali.” Será que não é importante falar alguma coisa sobre aquele escândalo? Medicina não é o curso principal na área de saúde? Eu sei que é um curso de Atenção Básica, mas não é interessante ao menos dar, recitar uma nota, sobre o que está ocorrendo ali? Não tem uma relação intrínseca Atenção Básica, com o hospital, considerado alta complexidade?

Ninguém falou nada. Mas na mesa de autoridade, começou a falar um importante médico daqui da cidade. Eu sempre presto atenção ao que ele fala. Era só para ele dar boas vindas a nós alunos, mas tomou o microfone e falou algumas coisas que anotei, pois achei muito interessantes.

Primeiro ele falou algo que não concordei muito. Ele disse que estava impressionado com os números que esse curso estava apresentando. Que a cada turma do curso se formavam, capacitavam, muitas pessoas, e a soma total, de todas as turmas, passava mais de mil pessoas, milhares. Ele estava defendendo o método do EAD. Disse que era um método incrível, e que se fosse pelo método de ensino mais tradicional, de alguns alunos em uma sala de aula presencialmente, pelo número que a Universidade já havia formado até então, se fosse pelo método anterior, seriam necessário mais de 60 anos para que se atingisse esse mesmo número de pessoas “capacitadas.” E bem como sabemos, "capacitadas", é um termo muito abrangente, no mínimo.

Eu acho muito interessante o método de Educação a Distância. Mas acredito que esse método não deva ser visto assim com tanto “glamour”. A sua qualidade depende muitas vezes da instituição que está por detrás do EAD. E acredito que não tem nem comparação, em termos de se “adquirir conhecimento”, o EAD, em comparação com o método presencial. Já tive algumas experiências nos dois métodos.

Para mim é complicado pensar em “HUMANIZA SUS” em EAD.

Mas acho que vai ser muito bom esse curso.

Entretanto, o conhecimento que adquirimos nas “entrelinhas”, em contato direto com colegas, professores, isso é inestimável em minha opinião. Que nenhum computador, nem programa, software, poderá me proporcionar. Sou ainda do tempo do “olho no olho”. E acredito que muito do que está necessitando o SUS, a Atenção Básica, são justamente ensinamentos, práticas, que podemos aprender em contato direto com o outro. Assim, um computador amputa totalmente algumas possibilidades de aprendizagem.

E fico pensando que temos que tomar muito cuidado com o EAD, no sentido do “tempo”. Pois vou me esforçar para realizar todas as atividades, em ambiente e horário de trabalho no máximo possível. Pois geralmente, o que acontece, é a pessoa em EAD, e a praticidade que o computador possibilita, realizar as atividades, ver as aulas, e exercícios, em casa, à noite, finais de semana, ou no horário de almoço (como estou fazendo agora). Pois são momentos estes, que deveriam estar voltados para o descanso, lazer, família, amigos, etc.

Enfim, continuando na fala desse professor, ele começou defendendo o SUS. Disse que o SUS veio proporcionar atendimento de saúde para 40, 50 milhões de pessoas que antes não tinham nenhum tipo de "acesso a saúde" . Pois essas pessoas aqui no Brasil eram consideradas indigentes, ou seja, “não-gentes”. E que isso era um avanço social fantástico.

Entretanto, completou, dizendo que devidos a ataques midiáticos dos meios de comunicação de massa, só é retratado o SUS que não funciona, seus entraves. E que os avanços, como o citado acima, são esquecidos. Ele disse que essa espécie de “terrorismo”, é motivada muitas vezes por corporações de saúde privadas, no intuito de que essa nova classe média, calcada apenas em aspectos financeiros, adquira planos particulares de saúde, ao invés da defesa e construção do SUS.

Uma frase citada por ele, sobre os nossos dias, o capitalismo: “Temos o valor de uso, mas não temos valor de troca.”

Esse mesmo professor ainda disse, que depois de todo esse montante de profissionais de saúde de nível superior “capacitados” para atuar na atenção básica (que já participaram do mesmo curso que estávamos começando), o que eles (a Universidade) deveriam focalizar agora, eram cursos, capacitações, voltados aos trabalhadores de nível técnico. Achei isso muito bom. E concordo plenamente com ele. Acho que os trabalhadores de saúde, de nível técnico, é um grande contingente de pessoas nas unidades de saúde, que muitas vezes são “esquecidos” por todos nós.

Eu particularmente tento realizar um trabalho muito grande voltado aos/com os Agentes Comunitários de Saúde. Inclusive fiquei muito feliz em saber que uma colega agente de saúde, estava fazendo o curso devido minha “propaganda”. Ela tem nível superior, e uma vez me perguntou se eu sabia de algum curso para ela fazer. Assim, eu estou sempre informando a ela, sobre cursos na área de saúde.

Por fim, esse professor ainda falou, que fazendo ele parte de um “coletivo”, onde se discute várias pautas relacionadas a saúde pública, teria que “alertar” a todos nós, sobre o retrocesso que está surgindo em políticas públicas, com a nova “lei de combate as drogas”. Disse que ele e o coletivo dele eram totalmente contrários a nova lei que está em trâmite no congresso, tratando desse assunto, que faz regulamentar absurdos como a internação compulsória. E até mesmo falou algo sobre a possibilidade de se compor uma lista, onde estariam nomes de pessoas usuárias de drogas no país. E também que nessa lei, está a criação de um “disk-denúncia de drogas na escola”, onde adolescentes poderiam ligar para um número e denunciar algum colega de escola, suspeito de fazer uso de Drogas. Ele disse que isso tinha um cheiro forte de resquícios de ditadura militar.

Enfim, foram essas suas considerações.

Novamente, “apenas” o que para mim ficou faltando em sua fala, é que ele sendo “fruto” da Universidade, e tendo importante cargo público na área da saúde do estado, poderia falar alguma coisa sobre a situação caótica de escândalos da saúde daqui. Pois sempre é muito mais fácil criticar “o outro”, e nunca a autocrítica. Só isso que achei que faltou esse professor ter citado em sua fala.

Depois, foi a vez do palestrante principal, dar sua “aula inaugural”. Veio um médico sanitarista falar sobre a Política Nacional de Atenção Básica.

Ele falou “mornamente”, ressaltando alguns pontos que estamos todos quase cansados de saber, e que temos que tirar tudo isso do papel (só me lembro de algumas coisas e anotei):

o    Se a Atenção Básica é resolutiva, ela é capaz de resolver tanto problemas individuais, como coletivos.

o    A Atenção Básica pode/deve reorganizar a Atenção a Saúde.

o    Ele falou que quando existe um lugar, com grande investimento em prontos atendimentos, como os UPA´s, em detrimento ao investimento em Atenção Básica, o resultado disso, são níveis altos de medicalização, e de auto-custo de financiamento. (Isso é bem a realidade em minha opinião, de nossa cidade, estado).

o    A perspectiva de trabalho multiprofissional, é uma perspectiva Brasileira. Na Atenção Básica de outros países também fortes nesse nível de atenção a saúde, não existe esse “formato” multidisciplinar.

Por fim, já não restava mais ninguém no auditório, eu fiquei esperando, para ver se aconteceria algum debate. Até passou pela minha cabeça, fazer alguma pergunta para o representante do Ministério, sobre alguma informação sobre o escândalo que estava acontecendo aqui na capital. Como Brasília estava “vendo” isso tudo. Mas não ia querer causar nenhum constrangimento. Mas gostaria de ao menos escutar o que ele teria para falar informalmente, sem os slides.

Para nós, trabalhadores da ponta, é sempre um privilégio, termos “contato” ao menos visual, auditivo, com alguma pessoa assim, do Ministério da Saúde. E ele havia dito na palestra, que seria rápido para sobrar tempo para a discussão. Mas o que acorreu, foi que findada sua fala, com poucos “gatos pingados” no auditório, a coordenação do curso já falou do horário do almoço. E todos fomos embora.

São medidas/posturas assim, que ocorrem em micro contextos, que fazem em minha opinião, deixar o povo cada vez mais pacífico, paciente. E depois, reclamam dizendo que o povo não se interessa mais por política. É que não existem mais espaços para discussões. Claro: no “ambiente virtual” terá muito espaço para discussão. Mas não é a mesma coisa.

Como falei, não queria constranger ninguém. Queria apenas trocar uma palavra com o representante do Ministério, talvez. Então, que tipo de educação em saúde nós queremos, fiquei pensando? Problematizadora, crítica, ou apenas essa vertical, onde algumas pessoas falam, soando como: “voz da verdade,,,,” Fico pensando nessas coisas.

Já no momento da tarde, a professora, falou um pouco sobre a questão do PI- que é o Projeto de Intervenção, que todos teremos que entregar, no final do curso. Então, ao invés da Monografia Final, ou como se diz TCC – Trabalho de Conclusão de Curso, ou até mesmo um Artigo Científico, nessa pós-graduação, entregaremos o PI.

Achei interessante, essa proposta de PI no final do curso. Entretanto, só não gostei de um aspecto, expressos pelos seguintes comentários da nossa professora: “Esse é um trabalho diferente de um trabalho científico”. “Esse trabalho não será como um trabalho científico”. “Esse trabalho não terá o mesmo rigor que um trabalho científico”. Ou seja, o que eu entendi, é que esse nosso trabalho, tem alguma coisa de “menor valia”, que um trabalho dito científico logo de início.

Concordo até com a ideia de que não é um trabalho científico. Mas deu a impressão de que seja um trabalho a ser realizado, mais “fácil”. Acho que o PI não deve ser “menor”, ou “maior” que um trabalho científico. Mas diferente, isso sim.

Em um questionamento que eu fiz da questão do diferente, eu perguntei para a professora, se esse trabalho de PI, poderia ser, de algum trabalho que já foi realizado, ou mesmo, que está em andamento. Ela disse que já realizado não, mas que em andamento, poderia até ser.

Eu perguntei isso, devido pensar, que são 500 alunos, e que não é possível, que pelo menos  alguns dos demais colegas, não tenha algum tipo de trabalho interessante, experiência, para compartilhar com os colegas, publiciza-lo para nós. Talvez um colega tenha um, ou até dois trabalhos interessantes, e que não tenha tido tempo ainda de escrever sobre, e que no curso, poderia se dar mais aporte “teórico” ao trabalho. Colocando no PI aquilo que vem trabalhando ao longo dos anos, e às vezes até, ao longe de décadas...

E todos nós sabemos que existem muitos profissionais, e eu acho que sou um desses, que quer estar no curso, não apenas para aprender (eu quero muito aprender “mais”), mas também, para trocar experiências, práticas, percepções, daquilo que eu penso que a grande maioria de nós, comprometidos e eticamente engajados nos serviços, já estamos realizando.

Às vezes, existirá algum colega que lerá algum texto, disponibilizado pelos professores do curso, e a “ficha cairá”, dizendo: “puxa, eu já faço isso no meu contexto, estou no caminho certo.” E não apenas trabalhadores que vão fazer totalmente diferente ao que estão trabalhando, pois “não é assim que estaria nos livros”, ou que não é o que os professores ensinaram.

Existe uma questão geral, relacionado a isso que eu escrevi acima, que é a questão de que nós, trabalhadores “da ponta”, não produzimos, ou até mesmo, não temos “o conhecimento”. Pode até ser que não seja o tipo de conhecimento mais valorizado socialmente, como é o próprio conhecimento tido científico. Mas nós da ponta, carregamos muitos “conhecimentos”, que é só nosso, próprio, de quem está lá no serviço, diariamente. Não é o do escritor do livro de atenção básica, não é o do professor universitário, não é o do nosso gestor da secretaria da saúde, nem mesmo do Ministro Padilha. É diferente. E único. E por isso importantíssimo. E isso que é o nosso diferencial. E é isso em minha opinião, que deve ser ressaltado no PI. Talvez não seja o “rigor” científico, mas a questão da realidade, “nua e crua”, crítica, das dificuldades, avanços e desafios, que nós, diariamente, estamos totalmente imersos.

É isso. Desculpe ter me alongado em demasia na narrativa.

Esse foi o relato do meu primeiro dia de aula.

Gostei bastante de tudo. Fez-me pensar bastante.

Cadê minha empregada? 2

VIA: http://mariolobato.blogspot.com.br/2013/03/na-logica-de-danuza-protecao-pune.html

domingo, 24 de março de 2013


NA LÓGICA DE DANUZA, PROTEÇÃO PUNE DOMÉSTICAS

Tal qual os senhores de escravos do século XIX, que diziam que os negros não poderiam ser libertados, pois seriam entregues à própria sorte, a colunista Danuza Leão, da Folha, argumenta que a PEC das Domésticas, aprovada pelo Senado Federal, na verdade pune tais profissionais, uma vez que, com maiores direitos trabalhistas, como FGTS e adicional noturno, elas serão dispensadas pelas patroas


no Brasil 247


No século XIX, os escravocratas tinham um discurso na ponta da língua. Negros não podiam ser libertados porque, sem a proteção dos fazendeiros, que, afinal de contas, lhes devam abrigo e alimentação, seriam entregues à própria sorte. Neste domingo, aquele velho discurso ecoou na Folha de S. Paulo, na coluna da escritora Danuza Leão, que já viveu seus dias de glória como socialite.
No texto "A PEC das empregadas", Danuza escreve sobre o projeto de lei aprovado em primeiro turno pelo Senado Federal, que amplia direitos de tais profissionais, com a exigência de benefícios como o recolhimento de FGTS e o pagamento de FGTS. Ela prevê que o projeto, se não for bem discutido, colocará muita gente no olho da rua, uma vez que as patroas da classe média alta não conseguirão manter o privilégio – que, aliás, não existe em boa parte do mundo civilizado, que Danuza bem conhece.
Recentemente, Danuza já havia escrito que viajar a Paris e Nova York havia perdido a graça, porque havia o risco de dar de cara com o porteiro do prédio (leia mais aqui). Aparentemente, a socialite ainda não se acostumou com um Brasil em que as fronteiras sociais se movem e não são as mesmas do seu tempo.
Leia, abaixo, a coluna de Danuza:


A PEC das empregadas
Essa Pec das empregadas precisa ser muito discutida; como foi mal concebida, assim será difícil de ser cumprida, e aí todos vão perder.
A intenção de dar as melhores condições à profissional, faz com que seja quase impossível que o empregador tenha meios de cumprir com as novas leis; afinal, quem vai pagar esse salário é uma pessoa física, não uma empresa.
Vou fazer alguns comentários sobre as condições -diferentes- em que trabalham as domésticas aqui e em países mais civilizados.
Vou falar da França e dos Estados Unidos, que são os que mais conheço. Lá, quem mora em apartamento de dois quartos e sala, é considerada privilegiada, mas nenhum deles tem área de serviço nem quarto de empregada (costuma existir uma área comunitária no prédio com várias máquinas de lavar e secar, em que cada morador paga pelo tempo que usa); uma família que vive num apartamento desses tem -quando tem- uma profissional que vem uma vez por semana, por um par de horas.
É claro que cada um faz sua cama e lava seu prato, e a maioria come na rua; nessas cidades existem dezenas de pequenos restaurantes, e por preços mais do que razoáveis.
Apartamentos grandes, de gente rica, têm quarto de empregada no último andar do prédio (as chamadas "chambres de bonne", que passaram a ser alugadas aos estudantes), ou no térreo, completamente separados e independentes da família para quem trabalham.
Essas domésticas -fixas e raras- têm salario mensal, e sua carga horária é de 8 horas por dia, distribuídas assim: das 8h às 14h (portanto, 6 horas seguidas) arrumam, fazem o almoço, põem a casa em ordem. Aí param, descansam, estudam, vão ao cinema ou namoram; voltam às 19h, cuidam do jantar rapidinho (lá ninguém descasca batata nem rala cenoura nem faz refogado, porque tudo já é comprado praticamente pronto), e às 21h, trabalho encerrado.
Mas no Brasil, muitos apartamentos de quarto e sala têm quarto de empregada, e se a profissional mora no emprego, fica difícil estipular o que é hora extra, fora o "Maria, me traz um copo de água?". E a ideia de dar auxílio creche e educação para menores de 5 anos dos empregados, é sonho de uma noite de verão, pois se os patrões mal conseguem arcar com as despesas dos próprios filhos, imagine com os da empregada.
Quem vai empregar uma jovem com dois filhos pequenos, se tiver que pagar pela creche e educação dessas crianças? É desemprego na certa.
Outra coisa esquecida: na maior parte das cidades do Brasil uma empregada encara duas, três horas em mais de uma condução para chegar ao trabalho, e mais duas ou três para voltar para casa, o que faz toda a diferença: o transporte público no país é trágico. Atenção: não estou dando soluções, estou mostrando as dificuldades.
Na França, quando um casal normal, em que os dois trabalham, têm um filho, existem creches do governo (de graça) que faz com que uma babá não seja necessária, mas no Brasil? Ou a mãe larga o emprego para cuidar do filho ou tem que ser uma executiva de salário altíssimo para poder pagar uma creche particular ou uma babá em tempo integral, olha a complicação.
Nenhum país tem os benefícios trabalhistas iguais aos do Brasil, mas isso funciona quando as carteiras das empregadas são assinadas, o que não acontece na maioria dos casos; e além da hora extra, por que não regulamentar também o trabalho por hora, fácil de ser regularizado, pois pago a cada vez que é realizado? Se essa PEC não for muito bem discutida, pode acabar em desemprego.
P.S.: É difícil saber quem saiu pior na foto esta semana: se d. Dilma, dizendo em Roma que a culpa pelas tragédias de Petrópolis se deve às vítimas, que não quiseram sair de suas casas, ou se Cristina Kirchner, pedindo ajuda ao papa no assunto das Malvinas.
Leia, ainda, o texto da Agência Brasil, sobre a PEC das Domésticas: 
Mariana Jungmann
Repórter da Agência Brasil

Brasília - O plenário do Senado aprovou hoje (19), por unanimidade em primeiro turno, a proposta de emenda à Constituição (PEC) que amplia os direitos trabalhistas dos empregados domésticos, conhecida como PEC das Domésticas. Foram 70 votos favoráveis e nenhum contrário. Foi aprovada apenas uma emenda de redação, de modo que a matéria conserva o texto enviado pela Câmara dos Deputados.
O texto estende aos empregados domésticos 16 direitos assegurados hoje aos demais trabalhadores urbanos e rurais regidos pela Consolidação das  Leis do Trabalho (CLT), incluindo obrigatoriedade de recolhimento do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), hora extra e adicional noturno. Além disso, passa a ser obrigatório o aviso prévio de 30 dias antes de demissão sem justa causa ou de pedido de demissão por parte do trabalhador. A categoria reúne 6,6 milhões de brasileiros, sendo a maioria formada por mulheres (6,2 milhões).
Por acordo entre o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), e os demais senadores foram quebrados os interstícios necessários para a votação em primeiro turno. A votação em segundo turno foi marcada para a próxima semana, na terça-feira (26). Se o texto da Câmara for mantido também na próxima votação, a matéria seguirá para promulgação.