segunda-feira, 5 de agosto de 2013

 
REUTERS/Kyodo / Pessoas homenageiam as vítimas da bomba atômica de Hiroshima, no Japão, diante de memorial aos mortos Pessoas homenageiam as vítimas da bomba atômica de Hiroshima, no Japão, diante de memorial aos mortosjapão

Hiroshima lembra 68º aniversário da bomba atômica

Durante o memorial, realizado no Parque da Paz da cidade japonesa, foi prestado um minuto de silêncio
 
 
A cidade de Hiroshima lembrou nesta terça-feira (6, data local) o 68º aniversário do lançamento da bomba atômica que provocou a morte de centenas de milhares de seus cidadãos no final da Segunda Guerra Mundial, com uma cerimônia na qual pediu o fim da proliferação nuclear.
Durante o memorial, realizado no Parque da Paz da cidade japonesa, foi prestado um minuto de silêncio às 23h15 GMT (20h15 de Brasília).
Nessa mesma hora, o avião B-29 Enola Gay das Forças Aéreas dos EUA lançou em 6 agosto de 1945 o que seria o primeiro ataque nuclear da história.
Calcula-se que a bomba, que foi detonada com uma intensidade de 16 quilotons a cerca de 600 metros de altura, muito perto de onde hoje fica o Parque da Paz, matou de forma imediata 80.000 pessoas.
No entanto, no final de 1945, o número de mortos já tinha subido para cerca de 140.000, e o de vítimas pela radiação nos anos posteriores aumentou muito mais.
O primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, participou da cerimônia de hoje, e em seu discurso pediu o fim das armas nucleares.
Também discursou o prefeito de Hiroshima, Kazumi Matsui, filho de um dos milhares de sobreviventes da bomba. Ele clamou por uma Coreia do Norte e um "nordeste da Ásia" livre de armas nucleares e lembrou que o Japão ainda sofre, mais de dois anos depois, com os efeitos do acidente na usina nuclear de Fukushima.
A cerimônia deste ano reuniu representantes de 70 países, incluindo o embaixador dos Estados Unidos no Japão, John Roos.
Após o ataque sobre Hiroshima, os EUA lançaram uma segunda bomba nuclear em 9 de agosto de 1945 sobre a cidade de Nagasaki, o que forçou a rendição do Japão seis dias depois e pôs fim à Segunda Guerra Mundial.
Os ataques nucleares sobre as duas cidades japonesas foram os únicos que realizados até hoje.
 

Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação)

Sob holofotes, Mídia Ninja pede dinheiro do público para ampliar alcance

 
Divulgação/BBC Brasil
Integrantes do coletivo Mídia Ninja, que planeja expansão das atividades e financiamento do público
Integrantes do coletivo Mídia Ninja, que planeja expansão das atividades e financiamento do público

Sob os holofotes desde o início da onda de protestos no Brasil, o coletivo de jornalismo Mídia Ninja (Narrativas Independentes, Jornalismo e Ação) faz planos ambiciosos para o futuro.

"O nosso ideal é ajudar a criar uma rede financeiramente viável que dê conta não só da demanda do público por informação de qualidade, mas também da oferta de jornalistas que não encontram vagas no mercado ou que estão sendo despedidos das grandes redações", disse à BBC Brasil o jornalista Bruno Torturra, um dos membros do grupo em São Paulo.

O primeiro passo começa nesta semana, com o lançamento de uma campanha de financiamento coletivo para dar estrutura a equipes de produção e, em seguida, do site oficial do coletivo, que deve reunir conteúdo de grupos espalhados por todo o país.

Além da organização do conteúdo de centenas de fotografias e horas de vídeos documentando as manifestações, o grupo também pretende responder aos pedidos do público e dos críticos por mais textos e material editado pelos jornalistas - um desafio para quem tem milhares de colaboradores e afirma não ter uma linha editorial única. "A gente tem uma teia", diz Torturra.
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Manifestantes saem às ruas em protestos pelo Brasil151 fotos

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2.jul.2013 - Policial militar imobiliza manifestante ferido durante protesto contra os governos de São Paulo e Rio, em frente à Alesp (Assembleia Legislativa de São Paulo), na noite desta sexta-feira (2) Marcelo Alves/Techimage
A "teia" reúne grupos de produção cultural e comunicação em todo o país, ligados ao Fora do Eixo - uma rede de coletivos criada em 2005 para organizar festivais de música independentes. "Através do Fora do Eixo já estamos em todos os Estados, mas são pessoas com múltiplas funções, que são ativistas, produtores e que podem fazer a função de ninjas", explica.
Atualmente, mais de 20 pessoas se dedicam exclusivamente à produção de conteúdo para a Mídia Ninja nas equipes de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Fortaleza, Porto Alegre e Salvador.

"Um número um pouco maior de pessoas nos dá apoio, inclusive offline (não apenas nas transmissões na internet). Depois temos ainda centenas de pessoas que são colaboradoras eventuais, mandam uma foto, um parágrafo. É algo que nem dá pra contar, vem em fluxo. E agora (depois do início das manifestações) temos mais de 1.500 pessoas inscritas para trabalhar para o Mídia Ninja, que ainda não organizamos e não sabemos como vamos organizar", diz.

Fama


A procura por fazer parte da Mídia Ninja deu um salto após o início dos protestos em todo o país. Usando smartphones, laptops e acesso 3G, os colaboradores do grupo atualizavam sua página oficial no Facebook e transmitiam as manifestações ao vivo.

Em São Paulo, atingiram a marca de cerca de 100 mil espectadores ao transmitirem com detalhes os confrontos entre a Tropa de Choque e os manifestantes na noite de 18 de junho.

Nos protestos contra o governador Sérgio Cabral, no Rio, os ninjas tiveram o triplo de audiência e foram também protagonistas - dois deles foram detidos e soltos depois. Em frente à 9ª DP, no bairro do Catete, uma multidão se aglomerou aos gritos de "Ei, polícia, solta a Mídia Ninja".
Com a rejeição dos manifestantes à mídia tradicional, muitas vezes acusada de omitir o vigor dos protestos, os ninjas ganharam apoio e credibilidade junto aos participantes dos atos públicos em todo o país.

Desde então, o grupo foi objeto de reportagens nos principais meios de comunicação nacionais, nos jornais americanos New York Times e Wall Street Journal e no britânico The Guardian.

"A popularidade facilitou o nosso trabalho mais do que dificultou. Tem mais gente enchendo o saco, tem mais gente querendo sabotar e cada vez mais calúnias sobre nós. Mas a polícia agora nos trata como jornalistas e recebemos muito apoio e informação de gente que está nas ruas", diz Torturra.

A cobrança dos leitores, segundo o jornalista, também aumentou, assim como as críticas aos erros e aos posicionamentos do grupo. "Temos o nosso ponto de vista claro, mas não somos tendenciosos. Acho que ter o ponto de vista dos jornalistas claro é justamente o que torna a transmissão honesta", defende.

O novo site pretende reunir o conteúdo dos núcleos de produção jornalística ninja no país --o que incluiria textos, blogs, documentários, vídeos e reportagens com pontos de vista diversos. Mas Torturra admite que algum tipo de controle será necessário.

"Vamos analisar se algo for muito agressivo, muito ofensivo ou muito fora do que a maioria acredita que é razoável --desde um material de má qualidade, mal apurado, até uma edição que não seja justa. Mas (a seleção do material) é (feita com base) na construção de um bom senso coletivo, não em uma chefia que vai aplicar um manual de redação."
 

Financiamento

A popularidade também aumentou os questionamentos sobre o financiamento das operações do grupo. A Mídia Ninja, de acordo com Torturra, conta somente com parte dos recursos da rede Fora do Eixo e com o investimento voluntário da sua própria equipe.
Em entrevista ao jornal Valor Econômico, o produtor cultural Pablo Capilé, um dos fundadores do Fora do Eixo, afirmou que a rede é autogestionada --arrecada dinheiro através de eventos e atividades organizadas pelos coletivos e por editais ou licitações públicas. O dinheiro de editais, no entanto, seria equivaleria a entre 3% e 7% do caixa.
"Não é dinheiro de governo, nem dinheiro de partido. É política pública", defende Torturra. "Os recursos ajudam a financiar todas as atividades do Fora do Eixo nacionalmente, o que ajuda a Mídia Ninja a funcionar. Mas a Mídia Ninja nunca foi financiada por ninguém."

Recentemente, uma reportagem, do jornal O Globo afirmava que os "Ninjas querem verba oficial para sobreviver", e destacava posts em mídias sociais que circulavam fotos de Capilé com lideranças do PT. Capilé reconheceu ter colocado as fotos em seu perfil do Facebook, e disse ter outras fotos, com políticos de outros partidos.

Cartão de crédito

Como em eventuais relações políticas, a transparência também está presente no controle de recursos do grupo.

Quase toda a equipe da Mídia Ninja em São Paulo vive em uma casa que pertence ao Fora do Eixo, para multiplicar os recursos disponíveis. "Eles (as pessoas que moram na casa) têm a senha de um mesmo cartão (de crédito), mas esses gastos são controlados pelo Fora do Eixo. Isso pode ser usado para pagar a gasolina e a comida de pessoas que forem cobrir uma manifestação, mas não seria diferente se fossem produzir um show. Um orçamento específico da Mídia Ninja ainda não existe."

Na lógica de divisão comunitária dos recursos, nenhum dos ninjas recebe salário. Para planejar a operação com um orçamento próprio, eles esperam contar com a ajuda do público, com campanhas de financiamento coletivo pela internet. A primeira delas, que deve ser lançada nessa quarta-feira, deve arrecadar dinheiro para a compra de equipamentos para as equipes.

A depender da adesão à campanha, o grupo já pensa em uma proposta de assinatura mensal do site, mas com valores baixos e sem restrição de conteúdo. "É uma espécie de assinatura-apoio", explica Torturra.

Caso o plano dê certo --e caso os leitores manifestem com doações o mesmo apoio que mostraram nas ruas-- será possível pensar na remuneração dos colaboradores fixos, dizem os ninjas.
 

CPI da Saúde da Câmara também terá reunião com ministro da Saúde

Bruno Chaves
 
 
O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, receberá nesta terça-feira (5), às 17h, em Brasília (DF), os vereadores Flávio César (PT do B) e Carla Stephanini (PMDB), presidente e relatora da CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) da Saúde da Câmara Municipal. Deputados estaduais, integrantes da CPI da Saúde da Assembleia também participarão do encontro.
Os vereadores da Capital irão pedir autorização para terem acesso aos relatórios da força-tarefa do Ministério, que realizou auditorias no Hospital do Câncer, na Santa Casa, no Hospital Regional e no HU (Hospital Universitário), em maio e junho deste ano.
“Iremos também pedir acesso às auditorias do Denasus [Departamento de Auditoria do Sistema Único de Saúde] e a possibilidade de um integrante da força-tarefa para depor na CPI em Campo Grande", destacou o presidente Flávio César.
Segundo informações da assessoria da Câmara, o encontro foi intermediado pelos senadores Waldemir Moka (PMDB) e Delcídio do Amaral (PT).
 

WELCOME TO PANTANAL

Justiça já cassou mais de 25 políticos eleitos nas últimas eleições em Mato Grosso do Sul

 
Wendell Reis
 
 
A julgar pelo número de prefeitos afastados por acusações de compra de votos e outras irregularidades em Mato Grosso do Sul, os cinco vereadores investigados em Campo Grande (Mário César-PMDB, Delei Pinheiro-PSD, Paulo Pedra-PDT e Thais Helena-PT) têm motivos de sobra para ficarem preocupados.
De outubro de 2012 até agosto de 2013, a Justiça Eleitoral já cassou o mandato de pelo menos 12 prefeitos e 13 vereadores em Mato Grosso do Sul.
Dos 11 prefeitos, quatro foram afastados por indeferimento do pedido de registro de candidatura deles ou do vice: Geraldo Marques (PDT), em Bonito, Enelvo Felini (PSDB), em Sidrolândia, Jácomo Dagostin (PMDB) e do vice Ney Marçal (PT), Guia Lopes da Laguna, e Manoel Viais, em Caracol, onde o prefeito conseguiu efeito suspensivo e o Ministério Público entrou com agravo regimental que ainda está em tramitação.
Em outros três municípios os prefeitos foram afastados após cassação do registro ou do diploma: Getúlio Furtado Barbosa e Rogério Rosalin, ambos do PMDB, em Figueirão, Abraão Zacarias, em Bela Vista, e Marcelo Henrique de Mello, em Jardim. Os três municípios realizaram eleição suplementar no dia 7 de julho e já têm novos prefeitos.
Outros quatro municípios tiveram prefeitos cassados pela Justiça Eleitoral, mas não fizeram nova eleição porque os cassados não conseguiram mais de 50% dos votos e os segundos colocados foram convocados. Forma cassados os prefeitos: Fauzi Suleiman (PMDB), em Aquidauana, Rosângela Baptista (PMDB), em Porto Murtinho, Zé Braquiara (PDT), em Paranaíba e Juliana Pereira Almeida (PT), em Miranda.
O prefeito que assumiu a administração em Aquidauana, José Henrique Trindade (PDT), também foi afastado pela Justiça em 1º grau. Assim, caso o afastamento seja confirmado, o Município pode ter nova eleição, já que a soma de Fauzi e de Trindade ultrapassa os 50% dos votos válidos. O prefeito de Japorã, Vanderlei Bispo (PT), e o vice, Jossé Klasmann, também foram cassados, mas conseguiram liminar e continuam no cargo.
A Justiça eleitoral também foi implacável com 13 vereadores até o momento. Além dos quatro da Capital, a Justiça afastou parlamentares e suplentes em Deodápolis, Maria Alves Assis de Souza; Corumbá, Antonio Luiz Almeida Viana (suplente) e Ronaldo Antônio da Costa; Bonito, Reginaldo dos Reis Nunes Rocha; Jardim, Álvaro Ribeiro Fernandes; Ladário, Daniel da Costa Brambilla; Mundo Novo, Neivaldo Francisco e Gessé Ferreira da Silva, e Anastácio, Manoel Luiz da Silva.
O Tribunal Regional Eleitoral (TRE) esclarece que os números não são definitivos e podem ser alterados em razão de novas sentenças condenatórias em 1º grau; julgamento dos recursos apresentados contra sentenças proferidas por juízes eleitorais de 1º grau e julgamentos feitos pelo TSE dos recursos apresentados contra os acórdãos proferidos pelo TRE.

MPE vai à Câmara da Capital cobrar punições contra irregularidades

Zemil Rocha 

Corregedor do MP visita amanhã os vereadores da Capital (Foto: Arquivo)Corregedor do MP visita amanhã os vereadores da Capital (Foto: Arquivo)
Os vereadores da Câmara de Campo Grande vão receber a visita do corregedor do Ministério Público Estadual (MPE), Mauri Riciotti, que exortará os integrantes do Parlamento Municipal a tomarem medidas diretamente diante da constatação de irregularidades, inclusive processo de cassação. A visita, agendada com o presidente da Câmara, Mario Cesar (PMDB), acontecerá amanhã, às 28 horas.
“O corregedor está fazendo reuniões desse tipo em todas as Câmaras Municipais, tratando das questões relativas às atribuições do Poder Legislativo”, afirmou Mario Cesar. “E há até atendimento do corregedor de que a Câmara tem de tomar suas providências, sem necessariamente encaminhar antes para o Ministério Público ou Tribunal de Contas. Acho que a reunião com ele vai esclarecer muitas dúvidas”, acrescentou.
No final do mês passado, Amauri Riciotti encaminhou ofício à Câmara de Campo Grande propugnando sobre a existência de denuncias de irregularidades que poderiam ter resultado em providências da Câmara, como a paralisação de obras inacabadas, retenção indevida de repasses financeiros e a nomeação de Luiz Carlos Santini para a Procuradoria Geral do Município.
Indagado sobre as providências da Câmara, diante dessas sugestões do MPE, Mario Cesar respondeu: “O que a gente fez foi encaminhar para prefeito e também para as comissões da Casa. Vamos ver se isso vai resultado em alguma ação mais determinante”. 

Sindicância promete apurar denúncias sobre serviço de cardiologia no Hospital Regional

 
Notícias MS/TL
 
 
O Hospital Regional de Mato Grosso do Sul (HRMS) determinou nesta segunda-feira (5) a criação de uma Comissão de Sindicância para apurar supostas irregularidades no fluxo de encaminhamentos de pacientes no setor de cardiologia do Hospital. A sindicância foi instaurada a pedido da nova diretoria do Hospital Regional, após denúncias do Núcleo Interno de Regulação que constatou fluxo inadequado de pacientes ao Serviço de Cardiologia.
Todas as informações e procedimentos sobre a averiguação administrativa já foram encaminhadas ao Departamento Nacional de Auditoria do SUS (DENASUS).
A Comissão será presidida pelo procurador-geral Ivanildo Silva da Costa, que também compõe a Comissão de Trabalho Especial do Hospital Regional de Mato Grosso do Sul. O prazo para a conclusão dos trabalhos de averiguação administrativa é de 30 dias, podendo ser prorrogado por igual período.
A determinação de instauração da sindicância foi publicada do Diário Oficial do Estado desta segunda-feira (5).
 

domingo, 4 de agosto de 2013

Proletários do giz

Professores não suportam mais as condições que fazem do ensino a trava do IDH brasileiro, diz historiador e acadêmico

03 de agosto de 2013 | 15h 29
Mônica Manir

Quando mestre de literatura no colegial, nos anos 1960 e 70, Alfredo Bosi oferecia Camões aos alunos. E recebia em troca Gigantes Adamastores empoleirados nas cadeiras, recitando estrofes completas do poeta português. Era sua voz contra a "pedagogia da preguiça", que dava o mínimo do mínimo à juventude, quando ela estava pronta para o máximo.
Troca. O ensino deve oferecer ao aluno o que ele merece e exigir o que ele pode dar - Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão
Troca. O ensino deve oferecer ao aluno o que ele merece e exigir o que ele pode dar

Professor há quatro décadas na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, ele continua num traçado pessoal pela qualidade do ensino. Daí sua preocupação com o resultado do último Índice de Desenvolvimento Humano das cidades brasileiras, que aponta a educação como a bigorna a puxar o índice para baixo.
Não é questão de distribuir kits e comprar mais computadores. Nem de sair às ruas pedindo Mais Professores, nos moldes do Mais Médicos. Para ele, falta valorizar econômica, social e culturalmente a profissão que seus alunos da faculdade não querem mais seguir. "O punctum ainda é o desestímulo sofrido pelo professor pelo excesso de trabalho, quase sempre em mais de uma escola, e pela angustiante falta de tempo para preparar as aulas e acompanhar de perto o aproveitamento dos alunos." Sem retorno, eles preferem trabalhar em empresas, laboratórios ou em pesquisa avançada. Não aceitam ser proletários do giz e da lousa. Ou do pincel atômico e do power point, que seja.
Este elegante imortal de 76 anos também refletiu sobre a avaliação dos alunos, "que passou de um extremo a outro, ambos lastimáveis", e sobre o repasse dos royalties do petróleo, "que precisa ser administrado à altura das nobres intenções que o motivaram". Refletir, aliás, é algo que cultiva em toda a sua carreira de crítico literário, historiador, ensaísta e ponto de resistência durante a ditadura, quando reunia padres, sindicalistas e intelectuais em sua casa em Cotia, onde mora. Em setembro ele voltará a matutar em conjunto no Colégio do Brasil, no Rio de Janeiro. Ali começam as reuniões do Círculo do Pensamento, bolado por 20 intelectuais - Bosi entre eles - para lutar contra a "dieta reflexiva de astronauta dos nossos tempos", como afirma o escritor Eduardo Portella. Dieta rala, modesta, que Alfredo Bosi certamente vai encorpar: "Ele é um homem de literatura que se distingue pela capacidade de pensar", finaliza o também professor Portella.
O IDH avançou 47,8% no Brasil. No entanto, a educação ainda é apontada como um entrave, pois se mantém num degrau médio. Como soltar esse freio de mão?
Alfredo Bosi-Como professor secundário e universitário que fui durante quatro décadas, pude observar de perto tanto os pontos altos como as carências dessa área capital para o desenvolvimento e qualidade de vida de nosso povo. Os pontos altos encontram-se, em geral, no ensino superior e, mais particularmente, nos cursos de pós-graduação. Quem acompanha a produção em várias áreas de pesquisa dita "de ponta", e o trabalho intenso desenvolvido por agências como Fapesp, CNPq, Finep, não pode deixar de alimentar esperanças em termos de nível intelectual, que, em alguns casos, iguala o de centros universitários de reputação internacional. No entanto, quando voltamos o olhar ao ensino primário e secundário, temos um panorama inquietante em que as exceções, embora honrosas, são ainda poucas.
Ao mesmo tempo, a educação foi o indicador que mais teve avanço desde 1991.
Alfredo Bosi-Os índices apontam para um avanço significativo ocorrido nestes primeiros anos do século 21, fato em si mesmo alvissareiro. Houve, de fato, um progresso quantitativo, pois, salvo em alguns bolsões de extrema pobreza, pode-se dizer que quase toda a população em idade escolar está nas salas de aula. Mas também fica evidente que há muito por fazer em termos de qualidade para chegarmos a um patamar suficiente, se comparamos nossa situação com a de outras nações, não só com as desenvolvidas, mas com algumas de economia modesta, como Uruguai, Cuba, Chile e Costa Rica. O crescimento econômico medido em termos de PIB não é garantia de uma política enérgica de educação, para a qual o valor prioritário deve ser a formação intelectual e ética do cidadão.
Em que estamos patinando?
Alfredo Bosi-Há muito tempo venho me preocupando com o diagnóstico dos males de nossa educação fundamental. Em artigos que escrevi para a Folha de S. Paulo (O Ponto Cego do Ensino Público) e para o Jornal do Brasil (Educação: as Pessoas e as Coisas), relatei os resultados de uma pesquisa que fiz registrando os salários dos professores dos cursos básicos em todo o País. Até os anos 1990, a maioria absoluta dos nossos mestres-escola não ganhava sequer um salário mínimo mensal. Eram proletários do giz e da lousa, que precisavam dar um número altíssimo de aulas para receberem um salário que significava então metade e às vezes um terço do que recebiam os docentes universitários em início de carreira. Era uma desproporção injusta e lesiva para o professor, para os alunos e para toda a sociedade brasileira. A pesquisa tocava no ponto cego do nosso ensino público: a desvalorização econômica, social e cultural do professor como o fator mais significativo do baixo rendimento do sistema educacional.
O que mudou de lá para cá?
Alfredo Bosi-A política dos poderes estaduais e municipais, que são os responsáveis pelo ensino básico, continuou subestimando a questão da valorização efetiva, e não só retórica, do professorado. Atribuiu-se equivocadamente o insucesso escolar a problemas de saúde do aluno pobre ou à "carência cultural" de suas famílias. Ou, então, especialistas em pedagogia davam excessiva importância ao uso deste ou daquele método de alfabetização, deste ou daquele sistema de ensino de matérias fundamentais como a matemática, a história, as ciências. Eram fatores relativamente importantes, mas desviavam a atenção para o que é essencial. O punctum era e ainda é o desestímulo sofrido pelo professor pelo excesso de trabalho, quase sempre em mais de uma escola, e pela angustiante falta de tempo para preparar suas aulas e acompanhar de perto o aproveitamento dos alunos. A distribuição de kits, livros, computadores e material escolar não deve substituir uma política corajosa de elevação salarial e valorização social do professor. As coisas por si sós não movem o processo educacional: o centro vivo são as pessoas, sua vontade cidadã de contribuir para o desenvolvimento intelectual e moral do jovem aluno.
No molde do ‘Mais Médicos’, a população deveria ir às ruas pedir ‘Mais Professores’?
Alfredo Bosi-Não sei se é o caso de reclamar por "mais professores", embora me pareça razoável, salvo melhor juízo, que em alguns municípios carentes se reclame por mais médicos. O fato é que em escolas de periferia de São Paulo (não conheço a situação de outros Estados) muitas classes ficam sem docentes de matérias fundamentais como português e matemática, porque os professores contratados faltam às aulas com uma frequência inquietante. Pergunto se não é o caso de pesquisar as causas desse comportamento que, de minha parte, se deveria atribuir ao desânimo de profissionais que ganham mal e não recebem do Estado o respeito e o estímulo de que necessitam para enfrentar as dificuldades cotidianas de seu trabalho. Como professor de uma das melhores faculdades de letras e humanidades do País, verifico que grande parte dos alunos graduados em matérias humanísticas e literárias não escolhe o magistério primário e secundário como carreira prioritária, embora tenha recebido formação específica para exercê-la. Há situações semelhantes entre alunos formados em matemática, física, química, biologia. Preferem trabalhar em empresas, laboratórios ou pesquisa avançada e dão as costas para a missão de transmitir seus conhecimentos em condições que estão aquém de suas expectativas profissionais. Trata-se de um sintoma de desistência do magistério, que precisamos interpretar corretamente para passar do diagnóstico à terapia.
Qual é o seu diagnóstico sobre o aprendizado do aluno?
Alfredo Bosi-Do ponto de vista estritamente pedagógico, a avaliação do aluno passou de um extremo a outro, ambos lastimáveis. Com a boa intenção de minorar o mal da repetência, endêmico até os anos 1990, algumas Secretarias de Educação optaram por um sistema de tolerância máxima pelo qual se evita sistematicamente reprovar todo e qualquer aluno, aprovando-o "para inglês ver", isto é, para parecer que o ensino foi bem-sucedido e fazer esse êxito numérico constar das estatísticas escolares. A situação assemelha-se à triste farsa dos que fingem que ensinam e dos que fingem que aprendem. Já é consenso lamentar que boa parte dos alunos que chegam ao último ano do ensino fundamental ainda tenha problemas graves de alfabetização, leitura, escrita, raciocínio matemático, etc. Parece-me que o bom senso exige uma revisão de alguns procedimentos automáticos e irresponsáveis desse processo que está desmoralizando o ensino básico brasileiro. O maior gargalo parece ser o da passagem do ensino fundamental para o médio. Mas não devemos desanimar, pois a qualidade da educação pública já foi excelente até os anos 1950, antes da explosão da sociedade de massas. Se não podemos voltar atrás, pois as condições objetivas são tão diferentes, devemos pelo menos apostar em estratégias que se ajustem às necessidades atuais, trabalhando nas duas pontas: valorizando o professor e oferecendo ao aluno o que ele merece, sem deixar de exigir o que ele pode dar.
Por que a inclusão social brasileira dos últimos 20 anos não atingiu a população nesse particular? Ainda vigora entre nós uma cultura escolar elitista?
Alfredo Bosi-Quando se fala em "cultura escolar elitista", pensa-se na questão candente da exclusão escolar e cultural. O remédio proposto ultimamente é o das cotas concedidas a alunos de famílias de baixa renda, provenientes de escolas públicas, e de preferência não brancos, negros e índios. A matéria é controversa e não sei se poderia tratá-la nesta entrevista, na medida em que me faltam dados confiáveis para avaliar o que está acontecendo e sobretudo o que vai acontecer a partir da concessão obrigatória das cotas. É sempre problemático querer resolver um mal pelo seu efeito final, no caso, a dificuldade de um aluno (prejudicado pelas condições acima descritas) superar a barreira de um vestibular público. O que me parece absolutamente necessário é dar a todos os alunos do ensino médio condições intelectuais para concorrerem em qualquer tipo de vestibular. Em outras palavras, enfrentar corajosamente a situação desfavorável do aluno da escola média pública quando confrontada com a das escolas particulares escolhidas pela alta classe média. A revolução educacional tem de começar de baixo para cima. O que é, sem dúvida, mais difícil e mais demorado do que remediar, pelo alto, uma situação desequilibrada que vem de longe. Em educação, democracia significa dar igualdade de oportunidades de conhecimento a todos os cidadãos sem distinção de idade, cor, gênero, nacionalidade ou renda familiar.
Como resposta às manifestações, a presidente Dilma apontou o uso dos royalties do petróleo na educação como um dos cinco pactos firmados com prefeitos e governadores. Esse montante, porém, só estará disponível em 2020. E questiona-se a forma como será aplicado. A educação já faz parte da agenda estratégica dos governos? Quero dizer, falta-lhes apenas mais dinheiro?
Alfredo Bosi-Espero que o grande aporte ao sistema educacional, proposto pela presidente Dilma, relativo aos royalties do pré-sal, seja administrado à altura das nobres intenções que o motivaram. E que, na hora decisiva da distribuição das verbas federais, as redes sociais e o Ministério Público fiquem atentos aos desvios que tantas vezes os executivos municipais operam, à socapa, canalizando o dinheiro concedido à educação para a prática do nepotismo e a construção de obras eleitoreiras. Finalmente, que seja equacionado com justeza o problema da valorização econômica do professor primário e secundário.