quinta-feira, 2 de julho de 2015

Fórmula - corrupção nos PODERES + caos GENERALIZADO = ++++GUARDAS+++++

Guardas tentam deter paciente e novo confronto com população é registrado

Confusão ocorreu terça-feira (30) na UPA Universitário
A demora no atendimento médico causou uma confusão generalizada na UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Bairro Universitário, em Campo Grande. O caso foi parar na polícia na tarde dessa terça-feira (30) depois que guardas municipais foram hostilizados por populares – o boletim de ocorrência foi registrado como desacato.
A reportagem do Midiamax recebeu um vídeo, onde dois homens da GCM (Guarda Civil Municipal) tentavam imobilizar um homem. Consta no boletim de ocorrência que o mesmo se exaltou depois de ter ido à UPA em busca de atendimento para a esposa. Ele teria passado horas esperando e por isto se revoltou e chegou a xingar um médico da unidade, no final da manhã. O homem teria dito que a esposa foi vítima de omissão de socorro. 

Veja o vídeo:

Mais tarde, por volta das 16 horas, conforme informações policiais, a guarnição da GCM foi acionada para atender uma ocorrência de briga generalizada na unidade de saúde. 
 
Ainda revoltado com o tempo de espera, o homem teria passado a agredir verbalmente os funcionários da UPA e feito ameaças de morte aos guardas. Tal atitude fez com que dois agentes da GCM tentassem controlar o homem, mas ele reagiu e chegou a cair ao chão. No vídeo, inclusive, é possível ver a ação dos agentes e um grupo de pessoas impedindo a atitude dos mesmos, chegando a ofendê-los.
O médico que teria sido xingado pelo homem também procurou a polícia e confirmou o ocorrido. O possível autor das agressões, de acordo com o boletim de ocorrência, apresentou outra versão e negou que tenha feito xingamentos ou cometido agressões e afirma que foi espancado pelos guardas. Ele disse à polícia ainda que gravou um vídeo que provaria a ação dos agentes, mas, tais imagens, conforme registro da ocorrência, não mostram o homem sendo agredido.
Greve dos enfermeiros
Tanto a Sesau (Secretaria Municipal de Saúde Pública) como a Guarda Civil foram procuradas pela reportagem do Midiamax para explicar o ocorrido. Por meio de nota de esclarecimento, as duas citaram que o atendimento nas unidades de saúde está mais devagar em virtude da greve dos enfermeiros da rede, que perdura há 12 dias em Campo Grande.
“A Secretaria Municipal de Saúde Pública informa que o atendimento de ontem (30/06) na UPA Universitário estava dentro da normalidade, com o quadro médico completo, sendo cinco clínicos gerais. A demora no atendimento dos pacientes de ficha azul (classificação de risco com menor gravidade) ocorreu, pois em grau de prioridade é menor e ainda pela greve implantada pelos enfermeiros, que são responsáveis por pequenos procedimento, como a triagem desses pacientes. A Sesau compreende que em situações de doença os pacientes ficam mais vulneráveis emocionalmente, no entanto, a secretaria prima pelo respeito e bom relacionamento entre pacientes e profissionais, ressaltando ainda que as unidades 24 horas priorizam casos de urgência e emergência”, diz a nota da Sesau.
A Guarda Municipal, por sua vez, explica:
“A Guarda Municipal está atuando na segurança dos servidores dos UPAs, bem como na preservação do patrimônio. O fato foi que um GCM sofreu agressão pelo cidadão que se evadiu do local. O guarda foi para a Depac Piratininga fazer o boletim de ocorrência. O problema instalado na UPA se deve à greve dos enfermeiros. Com a demora do atendimento a Guarda Civil Municipal continuará na defesa dos servidores e do patrimônio, dentro dos limites legais”.
 

quarta-feira, 1 de julho de 2015

Cobras e Lagartos




Chico Buarque
                 
 
Nunca mais vai beber minhas lágrimas
Não vai, não
Me fazer de gato e sapato
Não vai mesmo, não
Se eu choro, me lanho, me arranho
Não é de saudade(suponho que não)
É uma dor que emudece aqui dentro no meu coração
Se eu lembro de tuas palavras
Me vem suor
E o sangue me sobe
A cabeça esquenta
E eu fico pior
Me devolva aos meus travesseiros
E perco o meu sono
Que coisa ruim
Eu só sei que a imagem dele
Pregada na insônia
Não desgruda de mim

Homem Comum - Carlos Nader


Beltrame diz que guerra contras as drogas está perdida: "drogas são problema de saúde, e não de polícia"

http://mariolobato.blogspot.com.br/2015/06/beltrame-diz-que-guerra-contras-as.html

Beltrame diz que guerra contras as drogas está perdida: "drogas são problema de saúde, e não de polícia"



no GGN

Jornal GGN - Para o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mario Beltrame, a guerra contra as drogas "é perdida, irracional" e as drogas são problema de saúde, e não de polícia. Em entrevista para a revista Época durante viagem para a Europa, Beltrame se mostrou "encantando" com a programa de descriminalização das drogas em Portugal. " São 90 clínicas completas com toda a assistência, voluntários e visitas. Todos se juntaram para combater essa doença, porque o vício é uma enfermidade, e não um crime." Para ele, a descriminalização do uso traria efeitos positivos para a polícia e o Judiciário. 
Na entrevista, ele ainda se diz a favor do desarmamento e reclamou do governo federal, que estaria fazendo um plano de redução de homícidios sem consultar as secretarias estaduais.


Enviado por Leo V

Da Época


 

O secretário de Segurança do Rio diz que droga é problema de saúde, não de polícia – e que a descriminalização do uso não pode passar deste governo

 

RUTH DE AQUINO| DE PARIS

 

José Mariano Beltrame, homem forte da segurança do Estado do Rio de Janeiro há mais de oito anos, nem na Europa consegue passear. Está a trabalho, em Portugal e na França. Num momento em que a descriminalização do uso de drogas é debatida no Brasil, noSupremo Tribunal Federal (STF), ele admira a estratégia do governo português para lidar com o problema. Tossindo forte, “com uma farmácia na bagagem”, Beltrame aproveita a viagem de uma semana para ler O homem que amava os cachorros, livro do cubano Leonardo Padura sobre o assassinato do revolucionário Leon Trótski, em 1940, a mando do líder da União Soviética, Josef Stálin. Está em um hotel sem luxo, ao lado da Sorbonne, em Paris. Na pasta preta, o documento de cima o amolece. É um desenho feito pelo garoto Francisco, de 5 anos, filho de Beltrame. Mostra pai e filho de mãos dadas. “O Francisco fez para eu me lembrar dele na viagem.” Horas antes de pegar o trem para ir a Nice abrir um seminário sobre Cidades inovadoras, Beltrame falou a ÉPOCA sobre bandidos, policiais, cidadãos e drogas.

 

ÉPOCA – O que o senhor aprendeu nesta viagem?
​José Mariano Beltrame – Fiquei encantado com a descriminalização das drogas em Portugal. De todas as drogas, inclusive heroína, cocaína. O programa começou em 2000. No Brasil, não pode passar deste governo a descriminalização do uso. A guerra à droga é perdida, irracional. Podemos começar pela maconha. Convidei os portugueses para ir ao Brasil na Semana do Policial, em novembro, e contar a experiência de seu país. Em Portugal, o assunto “drogas” não está inserido na polícia, mas no Ministério da Saúde. Com a ajuda de juízes, procuradores, psicólogos, médicos, e integrantes da sociedade civil. A polícia pega o usuário e ele é convidado a participar de encontros. São 90 clínicas em Portugal, completas com toda a assistência, voluntários e visitas. E uma comissão fiscaliza isso. Todos se juntaram para combater essa doença, porque o vício é uma enfermidade, e não um crime. Sem vaidade, sem luta de poder.
 
ÉPOCA – No Brasil, estamos longe desse consenso...
Beltrame – No Rio, as UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) são uma forma de reconhecer o problema da droga, mas não abordar de uma forma belicista. Nunca foi nosso objetivo acabar com as drogas. É impossível. Parece que os brasileiros não acordam para o desperdício dessa guerra. Não existem vitoriosos. Descriminalizando o uso, um dos efeitos é o alívio na polícia e no Poder Judiciário, que podem se dedicar aos homicídios, aos crimes verdadeiros. Mas, olhe só: o governo federal está preparando um plano nacional de redução de homicídios sem consultar os Estados. Eu não fui consultado. Como não ouvir as secretarias estaduais para aprender com acertos e erros? Espero que o plano não envolva só questões policiais. Que venha com o foco de recuperar mecanismos sociais para prevenir a violência. A polícia nada mais é que a seta da ponta da flecha.
 
ÉPOCA – O senhor é a favor do desarmamento. Como vê as pesquisas, no Brasil, que vão em sentido contrário?
Beltrame – Nos Estados Unidos, o presidente Barack Obama vai à televisão se colocar pessoalmente contra a venda indiscriminada de armas, que certamente contribuiu para o massacre de negros por um jovem branco (na cidade de Charleston, em 17 de junho). Não importa se é no Alabama ou em Louisiana, o presidente não foge de tomar uma posição, e diz: “Se não foi possível regular as armas, temos como nação a obrigação de resolver o problema”. No Brasil, estamos em retrocesso. Eu tiro fuzil de policiais, levo uma surra quando tento tirar armas de bombeiros e uma grande parte da população continua querendo se armar.

Descoberta a provável causa do vício. E não é o que você pensa

http://mariolobato.blogspot.com.br/2015/06/descoberta-provavel-causa-do-vicio-e.html#more
 


COCAINE
 

no Brasil Post (sugestão do meu amigo Helder)

 

Faz cem anos que as drogas foram proibidas pela primeira vez - e, ao longo desse século de guerra contra as drogas, professores e governos nos contaram histórias de vício. Essas histórias estão enraizadas em nossas mentes. Elas parecem óbvias, verdades evidentes.

Até três ano atrás, quando comecei uma jornada de 50 000 quilômetros para escrever meu novo livro, 'Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs'(Perseguindo o grito: os primeiros e os últimos dias da guerra contra as drogas, em tradução livre), eu também acreditava nisso. Mas o que descobri em minhas viagens é que quase tudo o que nos contaram sobre o vício está errado - e existe uma história muito diferente à nossa espera, se estivermos prontos para ouvi-la.

Se realmente absorvermos essa nova história, teremos de mudar muito mais que a guerra contra as drogas. Teremos de nos transformar.

Aprendi com uma mistura extraordinária de pessoas que conheci na estrada. Dos amigos de Billie Holiday, que me ajudaram a entender como o fundador da guerra contra as drogas a perseguiu e ajudou a matá-la. De um médico judeu que foi tirado às escondidas do gueto de Budapeste quando era bebê, para depois destravar os segredos do vício quando adulto.

 

De um transexual traficante de crack do Brooklyn que foi concebido quando sua mãe, uma viciada em crack, foi estuprada pelo pai dele, um policial de Nova York. De um homem que foi mantido preso no fundo de um poço durante dois anos por uma ditadura para depois emergir e ser eleito presidente do Uruguai, começando os dias finais da guerra contra as drogas.

Tinha uma razão bastante pessoal para sair em busca dessas respostas. Uma das minhas primeiras lembranças da infância é tentar acordar um parente, sem sucesso. Desde então, venho pensando sobre o mistério do vício - o que faz algumas pessoas se fixar em uma droga ou um comportamento a ponto de não conseguir parar? Como ajudamos essas pessoas a voltar para a gente? Ao envelhecer, outro parente próximo ficou viciado em cocaína, e eu me envolvi com uma pessoa viciada em heroína. Acho que me sinto em casa perto de viciados.

Se você me perguntasse lá atrás o que provoca o vício em drogas, te olharia como se você fosse um idiota e diria: "Drogas. Dã." Não é difícil entender. Achei que tivesse visto isso acontecer na minha própria vida. Qualquer um consegue explicar. Imagine se eu, você e as próximas 20 pessoas que passarem na rua tomássemos uma droga potente por 20 dias. Existem agentes químicos fortes nessas drogas, então no vigésimo-primeiro dia nossos corpos precisariam desses químicos. Teríamos uma necessidade urgente deles. Estaríamos viciados. Esse é o significado de vício.

Essa teoria foi estabelecida por meio de experimentos com ratos - experimentos que foram injetados na psique americana nos anos 1980, em um famoso anúncio daPartnership for a Drug-Free America. Você talvez se lembre. O experimento é simples. Coloque um rato numa gaiola, sozinho, com duas garrafas d'água. Uma delas tem só água. A outra tem água misturada com cocaína ou heroína. Em quase todas as vezes que você fizer esse experimento, o rato vai ficar obcecado com a água com drogas. Ele vai tomá-la até morrer.

O anúncio explica: "Só uma droga é tão viciante, nove de dez ratos de laboratório vão usá-la. E usá-la. E usá-la. Até a morte. É chamada cocaína. E ela pode fazer o mesmo com você".

Mas, nos anos 1970, um professor de psicologia de Vancouver chamado Bruce Alexander percebeu algo estranho nesse experimento. O rato está sozinho na gaiola. Ele não tem nada para fazer além de usar a droga. O que aconteceria se tentássemos algo diferente? Então Alexander criou o Rat Park. É uma gaiola sofisticada, onde os ratos têm bolas coloridas e túneis para brincar, vários amigos e a melhor das comidas: tudo o que um rato poderia desejar. Alexander queria saber o que iria acontecer.

No Rat Park, todos os ratos tomaram água das duas garrafas, é claro, porque não sabiam o que elas continham. Mas o que aconteceu depois foi surpreendente.

Os ratos nessa vida boa não gostavam da água com drogas. Eles basicamente a ignoravam: consumiam menos de um quarto dessa água, em comparação com os animais isolados. Nenhum deles morreu. Todos os ratos que estavam sozinhos em suas gaiolas se tornaram dependentes da droga, mas isso não aconteceu com nenhum dos animais do Rat Park.

Inicialmente, achei que isso fosse meramente uma idiossincrasia dos ratos, até descobrir que havia - na mesma época do experimento do Rat Park - um equivalente humano em andamento. Era a Guerra do Vietnã.

A revista Time relatou que, entre os soldados americanos, usar heroína estava se tornando um hábito tão corriqueiro quanto mascar chiclete, e existem evidências sólidas para sustentar tal afirmação: cerca de 20% dos soldados americanos ficaram viciados em heroína no Vietnã, segundo um estudo publicado no Archives of General Psychiatry. Muita gente ficou compreensivelmente aterrorizada; elas achavam que com o fim da guerra um enorme número de viciados voltaria para casa.

Mas, na realidade, cerca de 95% dos soldados viciados - segundo o mesmo estudo - simplesmente pararam de usar heroína. Alguns poucos foram para clínicas de recuperação. Eles passaram de uma gaiola aterrorizante para uma agradável, e não queriam mais usar drogas.

Alexander argumenta que essa descoberta é uma contestação profunda tanto da visão direitista, segundo a qual o vício é uma fraqueza moral causada por uma vida de festas e hedonismo, quanto da visão liberal, que diz que o vício é uma doença que existe num cérebro quimicamente sequestrado. Na verdade, segundo Alexander, vício é adaptação. Não é você. É a gaiola.

Depois da primeira fase do Rat Park, Alexander levou seu teste além. Ele refez os primeiros experimentos, nos quais os ratos se tornavam usuários compulsivos de drogas. Ele os deixou usar a droga durante 57 dias - se tem um jeito de ficar viciado, é esse.

Então ele tirou os animais do isolamento e os colocou no Rat Park. Alexander queria saber se, uma vez viciado, o cérebro estava sequestrado e não havia maneira de recuperá-lo. As drogas assumem o controle? O que aconteceu - de novo - foi impressionante. Os ratos pareciam exibir alguns tremores de abstinência, mas logo pararam de usar as drogas pesadamente e voltaram a ter uma vida normal. A gaiola boa os salvou. (As referências completas de todos os estudos que estou mencionando estão no livro.)

Quando soube disso, fiquei encucado. Como seria possível? Essa nova teoria é um ataque tão radical ao que nos contaram que não parecia ser verdade. Mas, quanto mais cientistas entrevistava, quanto mais estudos lia, mais descobria coisas que não pareciam fazer sentido - a menos que você leve em conta essa nova abordagem.

Eis um exemplo de experimento que acontece à sua volta, e pode inclusive acontecer com você um dia desses. Se você for atropelado e quebrar a bacia, provavelmente vão te dar diamorfina, o nome médico para heroína.

No hospital, haverá muita gente tomando heroína por longos períodos, para aliviar a dor. A heroína que o médico te der vai ser muito mais pura e potente que aquela usada pelos viciados, que compram uma droga adulterada pelos traficantes. Então, se a velha teoria do vício estiver certa - a culpa é da droga; ela faz seu corpo precisar dela -, é óbvio o que vai acontecer. As pessoas sairão do hospital e irão direto procurar um traficante para comprar heroína.

Mas eis o que é estranho: isso virtualmente nunca acontece. Como me explicou o médico canadense Gabor Mate os usuários de heroína médica simplesmente param, apesar de meses de uso. A mesma droga, usada pelo mesmo período, cria viciados nas ruas, mas não afeta os pacientes de hospitais.

Se você ainda acredita, como eu acreditava, que o vício é causado por agentes químicos, isso não faz sentido. Mas, se você acredita na teoria de Bruce Alexander, a imagem começa a entrar em foco. O viciado da rua é o rato da primeira gaiola, isolado, sozinho, com uma única fonte de conforto. O paciente do hospital é o rato da segunda gaiola. Ele vai para casa, para uma vida em que está cercado pelas pessoas que ama. A droga é a mesma, mas o ambiente é diferente.

Isso nos dá um insight muito mais profundo que a necessidade de entender os viciados. O professor Peter Cohen argumenta que os seres humanos têm uma necessidade profunda de estabelecer laços e conexões. É como nos satisfazemos. Se não conseguirmos nos conectar uns com os outros, vamos nos conectar com o que encontrarmos - a bolinha pulando na roleta ou a ponta da agulha de uma seringa. Ele diz que deveríamos simplesmente parar de falar em "vício": deveríamos falar em "ligação". Um viciado em heroína criou uma ligação com a droga porque não conseguiu estabelecer outras conexões.

O oposto de vício, portanto, não é sobriedade. É conexão humana.

Quando soube disso tudo, fui sendo persuadido gradualmente. Mas restava uma dúvida incômoda. Será que os cientistas estão dizendo que a parte química do vício não faz diferença nenhuma?

Me explicaram - você pode se viciar em jogo, mas ninguém vai achar que você vai injetar um baralho nas veias. Você pode ser viciado, mas não há o lado químico. Fui a uma reunião dos Viciados em Jogos Anônimos em Las Vegas (com a permissão de todos os presentes, que sabiam que eu estava lá apenas como observador). Eles eram tão viciados quanto os usuários de cocaína e heroína que conheci. Mas uma mesa de pôquer não tem químicos.

Ainda assim, perguntei: a química desempenha algum papel? Um experimento tem a resposta precisa, que descobri no livro The Cult of Pharmacology (o culto da farmacologia, em tradução livre), de Richard DeGranpre.

Todos concordam que fumar cigarros é um dos processos mais viciantes que existem. Os químicos do tabaco vêm da nicotina. Quando foram inventados os adesivos de nicotina, no começo dos anos 1990, houve uma grande onda de otimismo - os fumantes poderiam satisfazer suas necessidades químicas sem o resto dos efeitos imundos (e mortais) do cigarro. Seria a libertação.

Mas o Ministério da Saúde descobriu que apenas 17,7% dos fumantes conseguem parar de fumar usando adesivos de nicotina. É claro que não é pouca coisa. Se os químicos respondem por 17,7% do vício, como mostra esse dado, ainda temos milhões de vidas arruinadas globalmente. Mas o que ele revela, mais uma vez, é que a história que nos contaram sobre as causas químicas do vício é real, mas só uma parte pequena de uma fotografia muito maior.

Isso tem enormes implicações para a secular guerra contra as drogas. Essa guerra massiva - que, como vi, mata gente dos shoppings mexicanos às ruas de Liverpool - é baseada na afirmação de que precisamos erradicar fisicamente uma vasta gama de químicos, pois eles sequestram cérebros e provocam o vício. Mas, se as drogas em si não são as causadoras do vício - se, na verdade, é a desconexão que causa o vício --, então nada disso faz sentido.

Ironicamente, a guerra contra as drogas na verdade potencializa esses causadores de vício. Por exemplo: fui a uma prisão no Arizona - "Tent City" --, onde os detentos ficam presos em minúsculas celas de pedra ("O Buraco") por semanas a fio se usarem drogas. É a versão humana mais próxima que consigo imaginar das gaiolas de isolamento dos ratos. Quando os presos saem da cadeia, não conseguirão emprego, porque têm ficha criminal - garantido um isolamento ainda maior. Vi exemplos assim no mundo inteiro.

Existe uma alternativa. Você pode criar um sistema desenhado para ajudar os viciados a se reconectar com o mundo - e, assim, deixar o vício para trás.

Isso não é teoria. Está acontecendo. Vi com meus próprios olhos. Cerca de 15 anos atrás, Portugal tinha um dos piores problemas de drogas da Europa - 1% da população era viciada em heroína. Os portugueses tentaram a guerra contra as drogas, mas o problema só piorava. Então decidiram fazer algo radicalmente diferente. Resolveram descriminar todas as drogas e usar o dinheiro gasto para prender os viciados em programas de reconexão - com seus sentimentos e com a sociedade. O passo mais crucial é garantir moradia e empregos subsidiados, para que eles tenham propósito na vida, algo que os faça sair da cama pela manhã. Em clínicas acolhedoras, vi os viciados aprendendo a se reconectar com seus sentimentos, depois de anos de trauma e de um silêncio forçado causado pelas drogas.

Um exemplo que observei foi um grupo de viciados que recebeu um empréstimos para começar uma empresa de coleta de lixo. Repentinamente, eles eram um grupo, todos conectados entre si e com a sociedade, cuidando uns dos outros.

Agora se conhecem os resultados disso tudo. Um estudo independente do British Journal of Criminology descobriu que, desde a total descriminação, o vício caiu e o uso de drogas injetáveis teve redução de 50%. Repito: o uso de drogas injetáveis teve redução de 50%. A descriminação foi um sucesso tão grande que pouquíssima gente em Portugal defende uma volta ao antigo sistema. O maior opositor dessa política em 2000 era João Figueira, o principal policial da força antidrogas. Ele fez alertas terríveis, do tipo que se espera ouvir na Fox News ou ler no Daily Mail. Mas, quando conversamos em Lisboa, Figueira me disse que nenhuma de suas previsões se confirmou - e agora ele espera que o resto do mundo siga o exemplo português.

Isso não é relevante só para os viciados que amo. É relevante para todos nós, pois nos força a pensar de maneira diferente a respeito de nós mesmos. Os seres humanos são animais que precisam de laços. Precisamos de conexões e de amor. A frase mais sábia do século 20 foi "Apenas se conecte", de E.M. Forster. Mas criamos um ambiente e uma cultura que cortou conexões, ou que oferece apenas um simulacro delas: a internet. O crescimento do vício é sintoma de uma doença mais profunda na maneira como vivemos - constantemente olhando para o próximo objeto brilhante que queremos comprar, em vez dos humanos que nos cercam.

O escritor George Monbiot fala na "era da solidão" Criamos sociedades humanas em que o corte de conexões nunca foi tão fácil. Bruce Alexander, o criador do Rat Park, me disse que falamos demais em recuperação de indivíduos. Precisamos falar de recuperação social - como todos nos recuperamos juntos da doença do isolamento que recai sobre nós como uma névoa densa.

Mas essas novas evidências não são apenas um desafio político. Elas não nos forçam somente a transformar nossas cabeças. Elas nos forçam a transformar nossos corações.

É muito difícil amar um viciado. Quando olho para os viciados que amo, é sempre tentador optar pela estratégia durona recomendada por programas como Intervention - falar para o viciado tomar jeito ou então cortá-lo de sua vida. A mensagem é que o viciado que não parar com as drogas deve ser rejeitado. É a lógica da guerra contra as drogas importada para nossas vidas. Mas, na verdade, aprendi que isso só agrava o vício - e você pode perder a pessoa para sempre. Voltei para casa determinado a me aproximar como nunca dos viciados da minha vida - dizer para eles que os amo incondicionalmente, consigam eles parar ou não.

Quando terminei minha longa jornada, olhei para meu ex-namorado, em crise de abstinência, tremendo no quarto de visitas, e pensei nele de um jeito diferente. Há um século estamos entoando cantos de guerra sobre os viciados. Quando secava a testa dele, me ocorreu que deveríamos estar entoando canções de amor.

A história completa da jornada de Johann Hari - contada por meio das histórias das pessoas que ele conheceu - está em 'Chasing The Scream: The First and Last Days of the War on Drugs' (Perseguindo o grito: os primeiros e os últimos dias da guerra contra as drogas, em tradução livre), publicada pela Bloomsbury. O livro foi elogiado por Elton John, Naomi Klein e Glenn Greenwald, entre outros. Saiba mais sobre o livro

As referências completas e fontes para todas as informações citadas neste artigo estão nas extensas notas do livro.

Em bairro esquecido, artista sonha em transformar sua casa num espaço cultural

Por lá o quintal abriga plantas, animais e muitas cores
 
  • No quintal da casa, cantos com os quatro elementos da natureza (Cleber Gellio)
  • Em uma zona considerada rural, na entrada de Campo Grande, próximo da UCDB (Universidade Católica Dom Bosco), o Condomínio Portal da Lagoa permanece esquecido há 15 anos. Por lá, durante anos não houve serviço de água encanada. Até hoje as correspondências não chegam até as casas e é preciso ir à sede da associação dos moradores para buscar a conta de luz e de água. Considerado clandestino por conta de um “golpe” da imobiliária - como explicam os que ali vivem - a escritura dos terrenos nunca foi obtida e o bairro segue em expansão, mas apagado dos registros do município.
    Foi ali que o artista plástico e educador social, Pablo Oliveira, 44 anos, construiu sua casa, a casa que ele espera que um dia seja o ponto irradiador de arte em sua comunidade. Logo de cara, a fachada colorida, com peixes coloridos por todos os lados e azul nas paredes, destoam da vizinhança sóbria. 
    Uma placa discreta talhada em um pequeno pedaço de madeira deixa claro que estamos diante de um ponto de referência. A “Mandala Saberarte” como a intitulou Pablo será no futuro um espaço de arte e integração. “Meu sonho é tornar essa casa um pequeno centro de convivência para a comunidade. Um espaço de arte”, conta.
    Construída sob a lógica dos quatro elementos, a casa pequenininha disputa espaço com a imensidão do quintal que por aqui é o mais importante. “Essa questão da integração com o quintal é muito importante para mim. Dou muita atenção e quero que o meu quintal seja vivo”, e certamente é.
    Galinhas, gatos, cachorro e peixes o habitam num sinal claro de que harmonia é necessidade básica por lá. No chão, Pablo construiu suas famosas mandalas. Elas dividem o espaço e definem os cantos regidos pelo ar, água e fogo. “Cada mandala tem um significado. A da água tem um tanque de peixes; na do ar eu construí meu mirante para olhar para o céu e assim vai. Cada uma especial do seu jeito”, explica empolgado.
    Na mandala da terra, a mais escondida, o “artista da natureza”, como é conhecido, fez sua pequena horta. “Aqui eu plantei as coisas básicas que comemos. É bom produzir algo que você consome”, diz.
    O quintal de Pablo também serve de depósito, provisório, de materiais recicláveis. Como educador social ele atua com um grupo de catadores. Com eles, as lições são baseadas na autogestão. “Só os auxílio na questão da autogestão e produção coletiva. É um ótimo trabalho”, conta entusiasmado certo de que este é um assunto para outra matéria. Voltemos a casa!
    Lá já funcionou um varal de poesia e algumas oficinas de artesanato. “Usávamos o espaço do terreno baldio do vizinho, mas ele construiu ali e agora reduzimos nosso espaço apenas o meu quintal. Mesmo assim, a ideia é fazer muita coisa aqui”.
    Antes que nos despedíssemos, Pablo que nasceu em Aquidauana, mas vive em Campo Grande há muitos anos, nos convida a uma visita ao seu mirante construído sob os galhos de uma árvore. “É aqui que eu venho para pensar. Coloco minha rede aqui e fico olhando tudo isso. É uma sensação totalmente diferente”, traduz. Dali, além de sua vizinhança, Pablo olha para o futuro e enxerga nele a sua casinha colorida repleta de arte e gente por todos os lados.    

    http://www.midiamax.com.br/midiamais/bairro-esquecido-artista-sonha-fazer-sua-casa-espaco-arte-comunidad-264419

    quarta-feira, 24 de junho de 2015

    Quando uma estrela cai, no escurão da noite,
    e um violeiro toca suas mágoas.
    Então os olhos dos bichos, vão ficando iluminados
    Rebrilham neles estrelas de um sertão enluarado
    Quando um amor termina, perdido numa esquina,
    e um violeiro toca sua sina.
    Então os olhos dos bichos, vão ficando entristecidos
    Rebrilham neles lembranças dos amores esquecidos.
    Quando um amor começa, nossa alegria chama,
    e um violeiro toca em nossa cama.
    Então os olhos dos bichos, são os olhos de quem ama
    Pois a natureza é isso, sem medo nem dó nem drama
    Tudo é sertão, tudo é paixão, se o violeiro toca
    A viola, o violeiro e o amor se tocam