quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

No Choque e Espanto de 12 de janeiro, PM de Alckmin promoveu emboscada, arrancou camiseta do PSOL e quebrou os dentes de manifestante; veja as imagens

publicado em 13 de janeiro de 2016 às 16:36
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Depoimento de Raul Santiago, militante do PSOL que a PM obrigou a tirar a camisa do partido
da página do PSOL
Raul Santiago Rosa é militante do PSOL em São Paulo. Durante o ato desta terça-feira (12) contra o aumento das tarifas de transporte público, foi duramente reprimido pela Polícia Militar e, em meio a diversas ameaças, recebeu uma ordem de policiais para tirar a camisa que vestia, não por acaso com os símbolos do partido, que ficou como demonstra a foto. Leia abaixo o seu depoimento:
“Estava na concentração 40 minutos antes do ato ‘começar’. Mal os manifestantes se posicionaram para marchar já iniciou o bombardeio. A polícia estava visivelmente bem organizada, armada e fardada, e todas as vias foram fechadas de modo a nos encurralar.
Eu já estive em várias manifestações com repressão, mas nunca vi essa quantidade de bombas ser jogada no meio da multidão. Várias pessoas se machucaram muito seriamente.
Estava com minha namorada, que estava ajudando uma outra garota, e neste momento estávamos com as mãos para o alto quando jogaram uma bomba de estilhaço entre eu e ela. Ambos fomos atingidos, eu um pouco mais gravemente pois os estilhaços se espalharam pela perna, costas e braço. Neste momento nos perdemos.
Demorei um tempo até conseguir falar com ela, e quando consegui imediatamente fui encontrá-la. Então, quando estava no último quarteirão da Rua Haddock Lobo em direção à Av. Paulista, fui abordado por 5 policiais da PM.
O motorista tirou a arma de fogo letal de dentro do carro para me fazer parar. Joguei minha mala no chão e eles mandaram eu abrir as pernas e colocar a mão na cabeça de costas. Neste momento eles gritaram:
— Sua mala está pesada né? Tem explosivo aí? – Fiquei com muito medo de eles implantarem algo. — Você tem passagem na delegacia? O que faz da vida?
Eu respondi que não tinha, que era estudante e trabalhador de carteira assinada, que estava lá porque era contra o aumento.
– Repete para mim: você tem sorte de estar vivo – repeti – é a primeira vez que te vejo aqui, se eu te ver de novo em manifestaçãozinha de esquerda vou quebrar seus dentes e você vai cuspir um a um.
Estava com muito medo, mas tentei olhar as identificações dele. Eles não deixavam.
— Olho nos meus olhos seu vagabundo, vou dar um tapa nessa orelha com brinco até rasgar ele fora.
Depois disso eles tiraram dezenas de fotos minhas, do meu rosto com RG etc.
— Você tá no meu “book” agora, se eu te pegar de novo vou te estraçalhar.
Eles revistaram minha mala inteira, ficaram me aterrorizando. Depois que terminou eu segurava minha camiseta para cima pois ela encostava no machucado do estilhaço da bala e ardia muito.
– Tomou bala é? Isso é menos do que você merece, eu tô com vontade de te encher de porrada aqui. Tira essa camiseta do partido e põe na mala que cê tá liberado, cê entendeu?
Foi horrível, mas eu tive de tirar a camiseta que expressa minha posição política e colocar dentro da mala como se eu tivesse vergonha dela. Eu tinha outra camisa que ele me obrigou a vestir e fui embora.
Visivelmente essa equipe da PM estava destacada para ‘apavorar’ a juventude, desestimulando todo mundo a ir nas manifestações. Mas isso nos fortalece, sabemos que lutar por direitos não é crime, portanto não devemos nos intimidar. Além disso é um absurdo a repressão ideológica que sofri, mostrando o retrocesso que é essa polícia militarizada.
Estou feliz de saber que estou fazendo o certo. Se meu partido é inimigo de quem aumenta a passagem, fecha escolas, precariza a saúde e bate em trabalhadores e estudante, tenho orgulho de vestir a camisa do PSOL e tomar quantas bombas forem necessárias para deixar clara a minha posição de que sou contra a política do governo do estado e da prefeitura.”
PS do Viomundo: O Estadão contou uma bomba a cada sete segundos por um período de 6 minutos. Um verdadeiro Choque e Espanto.
*****
NOTA DO MOVIMENTO PASSE LIVRE SOBRE A REPRESSÃO POLICIAL NO ATO DO DIA 12
Em 2013,a população mobilizada barrou o aumento da tarifa. De lá para cá, ao invés de respeitar a conquista histórica do povo, a Prefeitura e Governo do Estado aumentaram em 80 centavos a tarifa, 26% em relação aos R$3,00! Pelo segundo ano seguido o governador Geraldo Alckmin e o prefeito Fernando Haddad deram as mãos e aumentaram juntos as passagens de trens, metrôs, ônibus urbanos e interurbanos.
Esse aumento absurdo, prejudica principalmente a população mais pobre. Estudos do IPEA sugerem que mais de 400 mil pessoas podem ser excluídas do transporte público só na cidade de São Paulo por não poder pagar a tarifa. Esse aumento só interessa aos empresários do transporte, que mantém seus lucros milionários. O valor da tarifa, assim como sua própria existência, é uma decisão política, que nada tem haver com a inflação.
É a decisão de fazer a população arcar com a farra dos ricos pagando não só com a delapidação dos seus salários, mas também com seu sofrimento cotidiano nos ônibus e trens lotados! Não aguentamos mais!
O direito à cidade é a pauta básica do MPL. Ontem vimos que ainda há muito pelo que lutar. A cidade esteve sitiada pela polícia militar numa verdadeira operação de guerra contra a população, que se reunia para lutar contra mais um aumento de tarifa.
As barreiras policiais são mais uma das inúmeras catracas que enfrentamos todos os dias. Elas impediam que a população participasse da manifestação, revistando e prendendo pessoas que tentavam passar pelo bloqueio policial para chegar até o ato. Foi instalado um clima de terror impedindo nosso direito democrático de manifestação. A tática orquestrada pela Polícia era obrigar a manifestação a descer pela Consolação, onde tinha sido armada um verdadeiro matadouro, com policias da tropa de choque espalhadas ao longo do percurso.
Ao denunciarmos esta situação, e insistir em nosso trajeto original, o ato foi reprimido antes mesmo que ele começasse, situação que nunca ocorreu em um ato organizado pelo MPL. A PM cercou o ato completamente, nos impediu de seguir nosso trajeto, quis impor um trajeto que levava a manifestação para a praça de guerra montada no centro da cidade, e quando o ato tentou sair, sem descumprir nada do que havia sido informado ao Comando da Polícia, massacrou os manifestantes com bombas de estilhaço, de gás lacimogênio, balas de borrachas, spray de pimenta e porrada.
A PM continuou perseguindo os manifestantes após a implosão do ato, deixando dezenas de feridos, com fraturas expostas pelos estilhaços de bombas, atropelando manifestantes com motos, novamente atirando com bala de borracha nos olhos das pessoas.
Além dos vários detidos durante o ato na manobra conhecida como Calderão de Hamburgo, proibida em diversos países, a PM encaminhou 16 detidos as Delegacias, e 2 seguiram presos: um adolescente espera decisão da Vara da Infância para ser liberado ou encaminhado à Fundação Casa, e um maior de idade que acaba de ser liberado na audiência de custódia.
As cenas de terror que vivenciamos não foram despreparo da Polícia: são parte de uma estratégia de endurecimento da repressão. O Secretário de Segurança Pública, Alexandre de Moraes, defendeu a ação e fez uma estranha coletiva às 21h, quando a população que resistia ainda era reprimida no centro, defendendo que os movimentos sociais não tem direito de decidir o trajeto de seus atos. E a repressão que assistimos ontem não foi isolada.
A SSP mostrou que está disposta a trabalhar na ilegalidade para combater os protestos e defender as catracas: na segunda-feira, a Polícia Militar fez uma ofensiva contra os manifestantes, divulgando em tom de ameaça uma série de imagens de pessoas que teriam agredido um policial militar infiltrado durante protesto após terem presenciado o mesmo policial à paisana dando golpes em um manifestante.
Após a divulgação dessas imagens, SEM NENHUM MANDADO DE PRISÃO, a Polícia Militar foi na casa de duas pessoas que dizem que nem sequer participavam da manifestação, e supostamente teriam sido identificadas nessas imagens, e de forma absolutamente ilegal as levou presas para o 3o DP. A partir daí uma série de coações e ilegalidades se seguiram, diferentemente da versão apresentada pela polícia militar, eles foram obrigados a ir para a delegacia.
Como comprova o boletim de ocorrência, a chegada ao DP ocorreu as 20:13. Na delegacia, uma série de abusos ocorreu, a começar pelo fato de que as pessoas estavam detidas ilegalmente sem ordem judicial, e sem que aquilo configurasse um flagrante. No 3o DP, argumentou-se que essas prisões estariam dentro de um boletim de ocorrência por roubo registrado no 2o DP na sexta-feira, dia 08/01, mais de 72 horas antes.
Para buscar legitimar essa atuação absolutamente ilegal da polícia militar, o delegado da polícia civil conseguiu um mandado judicial decretando a prisão temporária dessas três pessoas em plena madrugada, que foi emitido às 01:48, ou seja, muito depois da PM ter prendido as pessoas em suas próprias casas.
Os dois seguem presos temporariamente, tendo sido a prisão decretada por um prazo de 5 dias. Além disso, outra pessoa foi presa em flagrante na sexta-feira, também no 2o DP, acusada de roubo da mochila do policial infiltrado. Ao todo, nesse momento, ao menos 5 pessoas seguem presas em virtude das manifestações contra o aumento da passagem.
Ao invés de discutir o transporte, o governo mostra que o único diálogo é a repressão. E a única prioridade também: os tanques blindados para conter as manifestações custaram R$30 milhões de dinheiro público, e cada uma das centenas de bombas lançadas contra a população chega a custar R$800. A munição que nos ataca é tarifa zero, bancada pelos impostos, mas a tarifa do transporte não! Não vamos nos intimidar! Resistiremos até o fim de todas as catracas!
R$3,80 NUNCA!
Movimento Passe Livre – São Paulo

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Política

Entrevista - Jessé de Souza

"A herança dos últimos 15 anos foi a ascensão dos excluídos"

Presidente do Ipea critica os vícios do pensamento brasileiro
por Miguel Martins publicado 01/01/2016 04h05, última modificação 01/01/2016 08h02
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Marcelo Carnaval/Ag. O Globo
Jesse-de-Souza
De Gilberto Freyre a Sérgio Buarque de Holanda, ninguém escapa
Atual presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o sociólogo Jessé de Souza é conhecido pelo pensamento agudo e a argumentação desassombrada. Seu novo livro, A Tolice da Inteligência Brasileira, confirma essas características. Ao analisar o desenvolvimento do pensamento no e sobre o País, Souza não poupa ninguém, nem mesmo Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. Segundo ele, o pensamento culturalista brasileiro tornou-se um instrumento das elites para influenciar a classe média na demonização das instituições e da classe política, o que esconderia a verdadeira intenção da parcela mais rica do País: apropriar-se novamente do Estado brasileiro. 
Na entrevista a seguir, Souza também critica o conceito de nova classe média criado por seu antecessor no Ipea, Marcelo Neri. Os setores médios tradicionais, argumenta, possuem privilégios não materiais inacessíveis aos novos trabalhadores. Essa classe média tradicional, acrescenta, é um dos três pilares da atual “gramática do golpe”. Os outros dois são a mídia e a Justiça, que substituiu as Forças Armadas nesta aliança.
CartaCapital: No livro A Tolice da Inteligência Brasileira, o senhor critica a perenidade dos mitos nacionais. A busca dessa identidade teria reforçado preconceitos sobre o brasileiro ser corrupto, levar tudo “no jeitinho”, ser hospitaleiro e amável, entre outros estereótipos. Neste ano de recrudescimento conservador no País, os mitos estão mais fortes?
Jessé de Souza: Os jornalistas, os professores e os livros no Brasil ainda recorrem a intelectuais que moldaram nossa interpretação em torno dessas questões. São ideias equivocadas, não valem um vintém do ponto de vista científico, mas convencem e mandam no País. Sempre que um governo popular chegou ao poder, as elites recuperaram o pensamento culturalista formulado desde 1933.
CC: O ano do lançamento de Casa-Grande e Senzala.
JS: Exato. A genialidade de Gilberto Freyre foi interpretar o País em uma comparação com os Estados Unidos, o grande outro do Brasil. Ele valorizou o encontro de raças e o classificou como um encontro de culturas. Como sempre perdíamos na comparação com os norte-americanos, era preciso criar um mito positivo, algo que a população pudesse aceitar e incorporar. Formulou-se então um mito que valoriza nosso corpo, sentimento e sexualidade. Embora absurdo, tendemos a aceitar que os norte-americanos e os europeus representam o espírito, a racionalidade, são mais produtivos e confiáveis, não são corruptos. Em Freyre, isso ainda é ambíguo.
Quando Sergio Buarque de Holanda reproduz esse mito no homem cordial, acaba por absorver apenas a parte negativa do antecessor, ao opor o homem cordial brasileiro ao homem racional norte-americano. Para pintar o Brasil como o país do atraso, os conflitos reais têm sido postos na sombra em nome de uma disputa entre Estado e mercado que passa a ser incensada. Não existe esse conflito. Cria-se esse falso certame para silenciar a luta de classes, na qual quem monopoliza o conhecimento e domina o capital cultural são as elites e a classe média.
CC: Embora não se veja dessa forma, a classe média brasileira é privilegiada?
JS:  Sem dúvida. Apesar de não ter acesso ao capital econômico do 1% mais rico, a classe média tem uma herança invisível, como estímulos emocionais e a capacidade de concentração, algo que os pobres não têm. Muitos entram na escola como potenciais analfabetos funcionais, antes mesmo de sua trajetória escolar. O liberalismo defende que a escola pode resolver os problemas sociais. A questão não é, porém, apenas a qualidade do ensino, mas toda uma construção emocional, sentimental, de estar aberto ou não ao pensamento abstrato, ao cálculo, ao pensamento prospectivo. Nada disso é natural, é um privilégio. A classe média tem tempo para planejar sua carreira ao longo da vida. Por batalharem demais no presente, os trabalhadores precarizados não têm essa perspectiva. 

Golpismo
A dita classe média se une à mídia e à Justiça, substituta dos militares/ Créditos: Paulo Pinto/Fotos Públicas
CC: Há uma crítica no livro à prevalência do economicismo nas análises de Marcio Pochmann e Marcelo Neri, seus antecessores no Ipea, sobre a ascensão social dos últimos anos. Esse foco excessivo na criação de empregos e na distribuição de bens materiais tem pago um preço neste momento de crise econômica?
JS: Esse é o ponto principal. Até 2010, só se falava em nova classe média. Passei a defender então o conceito de nova classe trabalhadora precarizada. Os trabalhadores tradicionais têm diminuído, enquanto o capitalismo financeiro ergue uma classe trabalhadora para suas próprias necessidades, não somente no Brasil, mas na China, na Rússia, em todos os locais onde há quem se disponha a fazer de tudo por muito pouco. E são esses precarizados que cresceram entre nós.
Os governos petistas não fomentaram a formação de uma nova classe média. Os batalhadores continuam sem qualquer privilégio de nascimento. A grande herança desses últimos 15 anos foi a manutenção desse processo de ascensão dos excluídos para uma classe trabalhadora, mesmo precarizada. Há inclusão no mercado, emprego formal e a possibilidade de investimento em educação para os filhos dos batalhadores. É preciso mudanças consequentes para se formar uma classe trabalhadora qualificada com alta produtividade, o grande desafio para o Brasil deixar de ser um exportador de matéria-prima. 
CC: Muitos dos novos trabalhadores têm ficado alheios à atuação sindical, e explicam sua ascensão social mais por méritos próprios ou pela intervenção divina do que pelo sucesso de políticas públicas. Isso fragiliza a base de apoio a um governo popular?
JS: Se a esquerda não construir uma alternativa, a única narrativa válida para os batalhadores será o pentecostalismo, que atrela em grande medida essa classe aos interesses de mercado. Isso não é, contudo, chapado. No Nordeste, essa classe percebe a relação da ascensão com os programas sociais, até porque lá a miséria anterior era muito maior. Sabem que devem a Lula. No Sudeste, a visão de que Deus ou o mérito pessoal foram mais relevantes é mais forte. Têm uma visão egoísta de mundo, atrelada a interesses de mercado. Essa própria classe não percebe quem são seus aliados políticos. O que mostra a pobreza de narrativa da própria esquerda. 
CC: Sobre as manifestações de junho de 2013, seu livro afirma que o dia 19 foi a grande virada, com a formação de um novo pacto conservador. Como o senhor interpreta a atual crise política em face desse pacto?
JS: Existe uma estrutura, uma gramática do golpe no Brasil. Ele mudou, modernizou-se, mas mantém a mesma estrutura. O golpe precisa do “bumbo” tocado pela imprensa conservadora, do suporte da classe média e de um elemento constitucional para dar a aparência de legalidade à captura da soberania popular. Nos governos democráticos de Getúlio Vargas e João Goulart, esse elemento eram os militares, pois a Constituição previa a intervenção das Forças Armadas em caso de desordem. Essa gramática modernizou-se: não está ancorada mais na botina do general, mas na toga da lei. O elemento constitucional atual são as agências de controle, a Polícia Federal, os juízes justiceiros, postos para além do bem e do mal. 
CC: Vivemos um momento crucial?
JS: É uma esquina da nossa história. Ou aprofundamos o que conquistamos nos últimos 15 anos, um processo abortado há 60 anos, ou voltamos a um Brasil governado para 20%, aquele erguido pelo golpe de 1964. 
*Entrevista publicada originalmente na edição 876 de CartaCapital, com o título "O demolidor"
 

O corpo utópico. Texto inédito de Michel Foucault

Nesta conferência de Michel Foucault – que acaba de ser publicada em espanhol – o corpo é, em primeiro lugar, “o contrário de uma utopia”, lugar “absoluto”, “desapiedado”, com o qual a utopia da alma se confronta. Mas, finalmente, o corpo, “visível e invisível”, “penetrável e opaco”, é “o ator principal de toda utopia” e cala apenas diante do espelho, do cadáver ou do amor.

A conferência “O corpo utópico”, de 1966, integra o livro El cuerpo utópico. Las heterotopías, cuja versão espanhola acaba de ser publicada (Ed. Nueva Vision). Esta versão está publicada no jornal argentino Página/12, 29-10-2010. A tradução é do Cepat.

Eis a conferência.

 

Basta eu acordar, que não posso escapar deste lugar que Proust [A recuperação do corpo no processo do acordar é um tema recorrente na obra de Marcel Proust – Nota da Redação], docemente, ansiosamente, ocupa uma vez mais em cada despertar. Não que me prenda ao lugar – porque depois de tudo eu posso não apenas mexer, andar por aí, mas posso movimentá-lo, removê-lo, mudá-lo de lugar –, mas somente por isso: não posso me deslocar sem ele. Não posso deixá-lo onde está para ir a outro lugar. Posso ir até o fim do mundo, posso me esconder, de manhã, debaixo das cobertas, encolher o máximo possível, posso deixar-me queimar ao sol na praia, mas o corpo sempre estará onde eu estou. Ele está aqui, irreparavelmente, nunca em outro lugar. Meu corpo é o contrário de uma utopia, é o que nunca está sob outro céu, é o lugar absoluto, o pequeno fragmento de espaço com o qual, em sentido estrito, eu me corporizo.

Meu corpo, topia desapiedada. E se, por ventura, eu vivesse com ele em uma espécie de familiaridade gastada, como com uma sombra, como com essas coisas de todos os dias que finalmente deixei de ver e que a vida passou para segundo plano, como essas chaminés, esses telhados que se amontoam cada tarde diante da minha janela? Mas, todas as manhãs, a mesma ferida; sob os meus olhos se desenha a inevitável imagem que o espelho impõe: rosto magro, costas curvadas, olhos míopes, careca, nada lindo, na verdade. Meu corpo é uma jaula desagradável, na qual terei que me mostrar e passear. É através de suas grades que eu vou falar, olhar, ser visto. Meu corpo é o lugar irremediável a que estou condenado.

Depois de tudo, creio que é contra ele e como que para apagá-lo, que nasceram todas as utopias. A que se devem o prestígio da utopia, da beleza, da maravilha da utopia? A utopia é um lugar fora de todos os lugares, mas é um lugar onde terei um corpo sem corpo, um corpo que será belo, límpido, transparente, luminoso, veloz, colossal em sua potência, infinito em sua duração, desligado, invisível, protegido, sempre transfigurado; e é bem possível que a utopia primeira, aquela que é a mais inextirpável no coração dos homens, seja precisamente a utopia de um corpo incorpóreo. O país das fadas, dos duendes, dos gênios, dos magos, e bem, é o país onde os corpos se transportam à velocidade da luz, onde as feridas se curam imediatamente, onde caímos de uma montanha sem nos machucar, onde se é visível quando se quer e invisível quando se deseja. Se há um país mágico é realmente para que nele eu seja um príncipe encantado e todos os lindos peraltas se tornem peludos e feios como ursos.

Mas há ainda outra utopia dedicada a desfazer os corpos. Essa utopia é o país dos mortos, são as grandes cidades utópicas deixadas pela civilização egípcia. Mas, o que são as múmias?  São a utopia do corpo negado e transfigurado. As múmias são o grande corpo utópico que persiste através do tempo. Há as pinturas e esculturas dos túmulos; as estátuas, que, desde a Idade Média, prolongam uma juventude que não terá fim. Atualmente, existem esses simples cubos de mármore, corpos geometrizados pela pedra, figuras regulares e brancas sobre o grande quadro negro dos cemitérios. E nessa cidade de utopia dos mortos, eis aqui que meu corpo se torna sólido como uma coisa, eterno como um deus.

Mas, talvez, a mais obstinada, a mais poderosa dessas utopias através das quais apagamos a triste topologia do corpo nos seja administrada pelo grande mito da alma, fornecido desde o fundo da história ocidental. A alma funciona maravilhosamente dentro do meu corpo. Nele se aloja, evidentemente, mas sabe escapar dele: escapa para ver as coisas, através das janelas dos meus olhos, escapa para sonhar quando durmo, para sobreviver quando morro. A minha alma é bela, pura, branca. E se meu corpo barroso – em todo o caso não muito limpo – vem a se sujar, é certo que haverá uma virtude, um poder, mil gestos sagrados que a restabelecerão em sua pureza primeira. A minha alma durará muito tempo, e mais que muito tempo, quando o meu velho corpo apodrecer. Viva a minha alma!  É o meu corpo luminoso, purificado, virtuoso, ágil, móvel, tíbio, fresco; é o meu corpo liso, castrado, arredondado como uma bolha de sabão.

E eis que o meu corpo, pela virtude de todas essas utopias, desapareceu. Desapareceu como a chama de uma vela que alguém sopra. A alma, as tumbas, os gênios e as fadas se apropriaram pela força dele, o fizeram desaparecer em um piscar de olhos, sopraram sobre seu peso, sobre sua feiúra, e me restituíram um corpo fulgurante e perpétuo.

Mas meu corpo, para dizer a verdade, não se deixa submeter com tanta facilidade. Depois de tudo, ele mesmo tem seus recursos próprios e fantásticos. Também ele possui lugares sem-lugar e lugares mais profundos, mais obstinados ainda que a alma, que a tumba, que o encanto dos magos. Tem suas bodegas e seus celeiros, seus lugares obscuros e praias luminosas. Minha cabeça, por exemplo, é uma estranha caverna aberta ao mundo exterior através de duas janelas, de duas aberturas – estou seguro disso, posto que as vejo no espelho. E, além disso, posso fechar um e outro separadamente. E, no entanto, não há mais que uma só dessas aberturas, porque diante de mim não vejo mais que uma única paisagem, contínua, sem tabiques nem cortes. E nessa cabeça, como acontecem as coisas? E, se as coisas entram na minha cabeça – e disso estou muito seguro, de que as coisas entram na minha cabeça quando olho, porque o sol, quando é muito forte e me deslumbra, vai a desgarrar até o fundo do meu cérebro –, e, no entanto, essas coisas ficam fora dela, posto que as vejo diante de mim e, para alcançá-las, devo me adiantar.

Corpo incompreensível, penetrável e opaco, aberto e fechado: corpo utópico. Corpo absolutamente visível – porque sei muito bem o que é ser visto por alguém de alto a baixo, sei o que é ser espiado por trás, vigiado por cima do ombro, surpreendido quando menos espero, sei o que é estar nu. Entretanto, esse mesmo corpo é também tomado por uma certa invisibilidade da qual jamais posso separá-lo. A minha nuca, por exemplo, posso tocá-la, mas jamais vê-la; as costas, que posso ver apenas no espelho; e o que é esse ombro, cujos movimentos e posições conheço com precisão, mas que jamais poderei ver sem retorcer-me espantosamente. O corpo, fantasma que não aparece senão na miragem de um espelho e, mesmo assim, de maneira fragmentada. Necessito realmente dos gênios e das fadas, e da morte e da alma, para ser ao mesmo tempo indissociavelmente visível e invisível? E, além disso, esse corpo é ligeiro, transparente, imponderável; não é uma coisa: anda, mexe, vive, deseja, se deixa atravessar sem resistências por todas as minhas intenções. Sim. Mas até o dia em que fico doente, sinto dor de estômago e febre. Até o dia em que estala no fundo da minha boca a dor de dentes. Então, então deixo de ser ligeiro, imponderável, etc.: me torno coisa, arquitetura fantástica e arruinada.

Não, realmente, não se necessita de magia, não se necessita de uma alma nem de uma morte para que eu seja ao mesmo tempo opaco e transparente, visível e invisível, vida e coisa. Para que eu seja utopia, basta que seja um corpo. Todas essas utopias pelas quais esquivava o meu corpo, simplesmente tinham seu modelo e seu ponto primeiro de aplicação, tinham seu lugar de origem em meu corpo. Estava muito equivocado há pouco ao dizer que as utopias estavam voltadas contra o corpo e destinadas a apagá-lo: elas nasceram do próprio corpo e depois, talvez, se voltarão contra ele.

Uma coisa, entretanto, é certa: o corpo humano é o ator principal de todas as utopias. Depois de tudo, uma das utopias mais velhas que os homens contaram a si mesmos, não é o sonho de corpos imensos, sem medidas, que devorariam o espaço e dominariam o mundo? É a velha utopia dos gigantes, que se encontra no coração de tantas lendas, na Europa, na África, na Oceania, na Ásia. Essa velha lenda que durante tanto tempo alimentou a imaginação ocidental, de Prometeu a Gulliver.

O corpo é também um grande ator utópico quando se pensa nas máscaras, na maquiagem e na tatuagem. Usar máscaras, maquiar-se, tatuar-se, não é exatamente, como se poderia imaginar, adquirir outro corpo, simplesmente um pouco mais belo, melhor decorado, mais facilmente reconhecível. Tatuar-se, maquiar-se, usar máscaras, é, sem dúvida, algo muito diferente; é fazer entrar o corpo em comunicação com poderes secretos e forças invisíveis. A máscara, o sinal tatuado, o enfeite colocado no corpo é toda uma linguagem: uma linguagem enigmática, cifrada, secreta, sagrada, que se deposita sobre esse mesmo corpo, chamando sobre ele a força de um deus, o poder surdo do sagrado ou a vivacidade do desejo. A máscara, a tatuagem, o enfeite coloca o corpo em outro espaço, o fazem entrar em um lugar que não tem lugar diretamente no mundo, fazem desse corpo um fragmento de um espaço imaginário, que entra em comunicação com o universo das divindades ou com o universo do outro. Alguém será possuído pelos deuses ou pela pessoa que acaba de seduzir. Em todo o caso, a máscara, a tatuagem, o enfeite são operações pelas quais o corpo é arrancado do seu espaço próprio e projetado a outro espaço.

Escutem, por exemplo, este conto japonês e a maneira como um tatuador faz passar a um universo que não é o nosso o corpo da jovem que ele deseja:

O sol lançava seus raios sobre o rio e incendiava o quarto das sete esteiras. Seus raios refletidos sobre a superfície da água formavam um desenho de ondas douradas sobre o papel dos biombos e sobre o rosto da jovem em sono profundo. Seikichi, depois de ter corrido os tabiques, tomou entre as suas mãos suas ferramentas de tatuagem. Durante alguns instantes permaneceu imerso numa espécie de êxtase. Precisamente agora saboreava plenamente a estranha beleza da jovem. Parecia-lhe que podia permanecer sentado diante desse rosto imóvel durante dezenas ou centenas de anos sem jamais experimentar nem cansaço nem aborrecimento. Assim como o povo de Mênfis embelezava outrora a terra magnífica do Egito de pirâmides e de esfinges, assim Seikichi, com todo o seu amor, quis embelezar com seu desenho a pele fresca da jovem. Aplicou-lhe de imediato a ponta de seus pincéis de cor segurando-os entre o polegar, e os dedos anular e pequeno da mão esquerda, e à medida que as linhas eram desenhadas, picava-as com sua agulha que segurava na mão direita.

E quando se pensa que as vestimentas sagradas ou profanas, religiosas ou civis fazem o indivíduo entrar no espaço fechado do religioso ou na rede invisível da sociedade, então se vê que tudo quanto toca o corpo – desenhos, cores, diademas, tiaras, vestimentas, uniformes – faz alcançar seu pleno desenvolvimento, sob uma forma sensível e abigarrada, as utopias seladas no corpo.

Mas, se fosse preciso descer mais uma vez abaixo das vestimentas, se fosse preciso alcançar a própria carne, e então se veria que em alguns casos, em seu ponto limite, é o próprio corpo que volta contra si seu poder utópico e faz entrar todo o espaço do religioso e do sagrado, todo o espaço do outro mundo, todo o espaço do contra-mundo, no interior mesmo do espaço que lhe está reservado. Então, o corpo, em sua materialidade, em sua carne, seria como o produto de suas próprias fantasias. Depois de tudo, acaso o corpo de um dançarino não é justamente um corpo dilatado segundo todo um espaço que lhe é interior e exterior ao mesmo tempo? E também os drogados, e os possuídos; os possuídos, cujo corpo se torna um inferno; os estigmatizados, cujo corpo se torna sofrimento, redenção e salvação, paraíso sangrante.

Bobagem dizer, portanto, como fiz no início, que meu corpo nunca está em outro lugar, quer era um aqui irremediável e que se opunha a toda utopia.

Meu corpo, de fato, está sempre em outro lugar. Está ligado a todos os outros lugares do mundo, e, para dizer a verdade, está num outro lugar que é o além do mundo. É em referência ao corpo que as coisas estão dispostas, é em relação ao corpo que existe uma esquerda e uma direita, um atrás e um na frente, um próximo e um distante. O corpo está no centro do mundo, ali onde os caminhos e os espaços se cruzam, o corpo não está em nenhuma parte: o coração do mundo é esse pequeno núcleo utópico a partir do qual sonho, falo, me expresso, imagino, percebo as coisas em seu lugar e também as nego pelo poder indefinido das utopias que imagino. O meu corpo é como a Cidade de Deus, não tem lugar, mas é de lá que se irradiam todos os lugares possíveis, reais ou utópicos.

Depois de tudo, as crianças demoram muito tempo para descobrir que têm um corpo. Durante meses, durante mais de um ano, não têm mais que um corpo disperso, membros, cavidades, orifícios, e tudo isto não se organiza, tudo isto não se corporiza literalmente, senão na imagem do espelho. De uma maneira mais estranha ainda, os gregos de Homero não tinham uma palavra para designar a unidade do corpo. Por mais paradoxal que possa parecer, diante de Tróia, sob os muros defendidos por Hector e seus companheiros, não havia corpo, havia braços levantados, havia peitos valorosos, pernas ágeis, cascos brilhantes acima das cabeças: não havia um corpo. A palavra grega que significa corpo só aparece em Homero para designar o cadáver. É esse cadáver, por conseguinte, é o cadáver e é o espelho que nos ensinam (enfim, que ensinaram os gregos e que ensinam agora as crianças) que temos um corpo, que esse corpo tem uma forma, que essa forma tem um contorno, que nesse contorno há uma espessura, um peso, numa palavra, que o corpo ocupa um lugar. O espelho e o cadáver assinalam um espaço à experiência profunda e originariamente utópica do corpo; o espelho e o cadáver fazem calar e apaziguam e fecham sobre um fecho – que agora está para nós selado – essa grande raiva utópica que deteriora e volatiliza a cada instante o nosso corpo. É graças a eles, ao espelho e ao cadáver, que o nosso corpo não é pura e simples utopia. Ora, se se pensa que a imagem do espelho está alojada para nós em um espaço inacessível, e que jamais poderemos estar ali onde estará o nosso cadáver, se pensamos que o espelho e o cadáver estão eles mesmos em um invencível outro lugar, então se descobre que só utopias podem encerrar-se sobre elas mesmas e ocultar um instante a utopia profunda e soberana de nosso corpo.

Talvez seria preciso dizer também que fazer o amor é sentir seu corpo se fechar sobre si, é finalmente existir fora de toda utopia, com toda a sua densidade, entre as mãos do outro. Sob os dedos do outro que te percorrem, todas as partes invisíveis do teu corpo se põem a existir, contra os lábios do outro os teus se tornam sensíveis, diante de seus olhos semi-abertos teu rosto adquire uma certeza, há um olhar finalmente par ver tuas pálpebras fechadas. Também o amor, assim como o espelho e como a morte, acalma a utopia do teu corpo, a cala, a acalma, a fecha como numa caixa, a fecha e a sela. É por isso que é um parente tão próximo da ilusão do espelho e da ameaça da morte; e se, apesar dessas duas figuras perigosas que o rodeiam, se gosta tanto de fazer o amor é porque, no amor, o corpo está aqui.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2015


Leandro Fortes: “Querem trocar juiz após vir à tona nome de tucano acusado de tráfico de órgãos”

publicado em 17 de abril de 2013 às 13:12
Paulinho, então com 10 anos, foi sedado e teve os órgãos retirados quando ainda estava vivo
A dor de Paulo Pavesi
por Leandro Fortes, em CartaCapital 
Sozinho, escondido em Londres, na Inglaterra, depois de ter conseguido asilo humanitário na Itália, em 2008, o analista de sistemas Paulo Pavesi se transformou no exército de um só homem contra a impunidade dos médicos-monstros que, em 2000, assassinaram seu filho para lhe retirar os rins, o fígado e as córneas.
Paulo Veronesi Pavesi, então com 10 anos de idade, caiu de um brinquedo no prédio onde morava, e foi levado para a Irmandade Santa Casa de Poços de Caldas, no sul de Minas, onde foi atendido pelo médico Alvaro Inhaez que, como se descobriu mais tarde, era o chefe de uma central clandestina de retirada de órgãos humanos disfarçada de ONG, a MG Sul Transplantes. Paulinho foi sedado e teve os órgãos retirados quando ainda estava vivo, no melhor estilo do médico nazista Josef Mengele.
Na edição desta semana de CartaCapital, publiquei uma reportagem sobre o envolvimento do deputado estadual Carlos Mosconi (PSDB) com a chamada “Máfia dos Transplantes” da Irmandade Santa Casa de Poços de Caldas.
Mosconi, eleito no início do ano, pela quarta vez consecutiva, presidente da Comissão de Saúde (!) da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, foi assessor especial do senador Aécio Neves (PSDB-MG), quando este era governador do estado. Aécio o nomeou, em 2003, presidente da Fundação Hospitalar do Estado de Minas Gerais (FHEMG), à qual a MG Sul Transplantes, idealizada por Mosconi e outros quatro médicos ligados á máfia dos transplantes, era subordinada.
As poucas notícias que são veiculadas sobre o caso, à exceção da matéria de minha autoria publicada esta semana, jamais citam o nome de Carlos Mosconi. Em Minas Gerais, como se sabe, a imprensa é controlada pela mão de ferro do PSDB. Nada se noticia de ruim sobre os tucanos, nem quando se trata de assassinato a sangue frio de uma criança de 10 anos que teve as córneas arrancadas quando ainda vivia para que fossem vendidas, no mercado negro, por 1,2 mil reais. Nada.
Esse silêncio, aliado à leniência da polícia e do judiciário mineiro, é fonte permanente da dor de Paulo Pavesi. Mas Pavesi não se cala. De seu exílio inglês, ele nos lembra, todos os dias, que somos uma sociedade arcaica e perversa ao ponto de proteger assassinos por questões políticas paroquiais.
Como sempre, a velha mídia nacional, sem falar na amordaçada mídia mineira, não deu repercussão alguma à CartaCapital, como se isso tivesse alguma importância nesses tempos de blogosfera e redes sociais.
Pela internet, o Brasil e o mundo foram apresentados ao juiz Narciso Alvarenga de Castro, da 1ª Vara Criminal de Poços de Caldas. Em de 19 de fevereiro desse ano, ele condenou quatro médicos-monstros envolvidos na máfia: João Alberto Brandão, Celso Scafi, Cláudio Fernandes e Alexandre Zincone. Eles foram condenados pela morte de um trabalhador rural, João Domingos de Carvalho.
Internado por sete dias na enfermaria da Santa Casa, entre 11 e 17 de abril de 2001, Carvalho, assim como Paulinho, foi dado como morto quando estava sedado e teve os rins, as córneas e o fígado retirados por Cláudio Fernandes e Celso Scafi. Outros sete casos semelhantes foram levantados pela Polícia Federal na Santa Casa.
Todos os condenados são ligados à MG Sul Transplantes. Scafi, além de tudo, era sócio de Mosconi em uma clínica de Poços de Caldas, base eleitoral do deputado. A quadrilha realizava os transplantes na Santa Casa, o que garantia, além do dinheiro tomado dos beneficiários da lista, recursos do SUS para o hospital. O delegado Célio Jacinto, responsável pelas investigações da PF, revelou a existência de uma carta do parlamentar na qual ele solicita ao amigo Ianhez o fornecimento de um rim para atender ao pedido do prefeito de Campanha (MG). A carta, disse o delegado, foi apreendida entre os documentos de Ianhez, mas desapareceu misteriosamente do inquérito sob custódia do Ministério Público Estadual de Minas Gerais.
Ontem, veio o troco.
A Câmara Criminal do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) suspendeu as audiências que aconteceriam de hoje, 17 de abril, até sexta-feira, 19 de abril, para se iniciar, finalmente, o julgamento do caso de Paulinho. Neste processo, estão sendo julgados, novamente, Cláudio Fernandes e Celso Scafi, além de outros acusado, Sérgio Poli Gaspar.
De acordo com a assessoria do TJMG, o cancelamento se deu por conta de uma medida de “exceção de suspeição” contra o juiz Narciso de Castro impetrada pelo escritório Kalil e Horta Advogados, que defende Fernandes e Scafi. A defesa da dupla, já condenada a penas de 8 a 11 anos de cadeia, argumenta que o juiz teria perdido a “necessária isenção e imparcialidade” para apreciar o Caso Pavesi.
Ou seja, querem trocar o juiz, justo agora que o nome do deputado Carlos Mosconi veio à tona.
Eu, sinceramente, ainda espero que haja juízes – e jornalistas – em Minas Gerais para denunciar esse acinte à humanidade de Paulo Pavesi que, no fim das contas, é a humanidade de todos nós.
 

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Chauí: Golpe agora fará 64 parecer pão doce; veja o vídeo em que ela ironiza FHC; Schwarz diz que estratégia da oposição foi tornar país ingovernável

publicado em 16 de dezembro de 2015 às 14:26
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por Luiz Carlos Azenha
Surpreendentemente, o auditório da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco, no centro de São Paulo, estava superlotado de professores e alunos.
Mais de 7.500 pessoas já assinaram o manifesto.
Dentre os mil que tiveram as assinaturas confirmadas, 264 são professores da Universidade de São Paulo, 66 da Unicamp, 59 da Universidade Federal do Rio de Janeiro, mas há centenas de assinaturas de professores de universidades federais e privadas de todo o Brasil e até do exterior.
Muitos deles são críticos do governo Dilma e do Partido dos Trabalhadores, como o filósofo Paulo Arantes. Porém, todos reconhecem que o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff é apenas um passo no processo de retirada de direitos sociais e da instalação de um governo oligárquico no Brasil, sob forte influência da extrema-direita. É, portanto, um golpe.
Na mesa, o neurocientista Miguel Nicolelis teve um flashback de 35 anos atrás, de quando o Brasil sofreu um golpe militar. “Quero evitar que meus filhos e meus netos tenham de voltar aqui para protestar contra uma ditadura”, afirmou. “Não é uma presidência, uma pessoa, é a defesa do Estado de direito, da democracia, do império da lei”.
A economista Leda Paulani relembrou que “nenhuma Nação passa impune por 25 anos de ditadura”. Segundo ela, “é a construção democrática do Brasil” que está em jogo. Os que propõem o impeachment, segundo ela, “nunca foram democratas”.
Outro economista, Luiz Gonzaga Beluzzo, também relembrou o passado. Disse que em 64, depois do golpe, apanhou do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) defendendo o governo constitucional de João Goulart e que o faria de novo, agora, se necessário for.
O jurista Dalmo Dallari afirmou que nunca foi filiado a partido político, que estudou a proposta de impeachment de Hélio Bicudo, Janaina Paschoal e Miguel Reali Jr. e que não existem atos da presidente Dilma que configurem crime de responsabilidade.
“Eu não diria que são falsos juristas, mas que são juristas incompletos”, afirmou. Nunca chegariam ao STF por terem demonstrado “notável ignorância jurídica”, aduziu.
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Paulo Arantes alegou que, por força da pergunta de um repórter, se sentia obrigado a explicar sua presença no ato, tendo em vista suas críticas recorrentes ao PT e ao governo Dilma.
“É em solidariedade às vítimas do processo em marcha. Saindo ou não saindo o impeachment, estamos diante de uma onda avassaladora que está se despejando sobre o Brasil”, afirmou.
Ele relembrou a manifestação na avenida Paulista em 2013, quando a esquerda apanhou de militantes direitistas quando comemorava a vitória do Movimento Passe Livre. Para ele, designar os pró-impeachment como “coxinhas é fofo”; no outro extremo, poderiam ser chamados de “milícias fascistas”.
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Para o fundador do PSDB, o economista Luiz Carlos Bresser Pereira, a democracia está ameaçada “pelos liberais”, que não aceitam premissas básicas dela, como os direitos civis e o sufrágio universal. Ele acrescentou que uma “classe média orfã” da política econômica fornece a militância para o que chamou de golpe.
Para Bresser, o impeachment falhará porque o Brasil tem uma sociedade plural, uma classe trabalhadora ativa e intelectuais como os que se reuniam naquele momento.
O professor Roberto Schwarcz disse que o impeachment vai enfraquecer a democracia e lembrou que, desde a apuração dos votos em 2014, a oposição trabalha para tornar o Brasil ingovernável de maneira a poder dar o golpe alegando que o país está desgovernado.
Para ele, se o governo atual for derrubado o impeachment estará legitimado como forma de resolver crises institucionais, mas o campo popular não terá acesso à imprensa, ao rádio e à TV, nem ao apoio da Fiesp, que representam “os interesses do dinheiro”.
O professor de Filosofia Marcos Nobre disse que a elite brasileira está “canalizando o sofrimento social” de uma crise econômica para dar o golpe. “É a energia sequestrada de uma sociedade”, disse. “A autodefesa de um sistema estruturalmente podre e corrupto”, segundo Nobre, resulta numa “enganação coletiva”: colocar os de baixo para apoiar uma proposta que basicamente beneficia os de cima.
Vídeo de Artur Scavone

Marilena Chauí afirmou que o impeachment é apenas a “cereja no bolo” da direita, que banca uma pauta extremamente conservadora no Congresso, incluindo da redução da maioridade penal à lei antiterrorismo.
Segundo ela, o que está sendo preparado “é a vitória completa do capital na luta de classes”. “Não é por acaso”, frisou, que “o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso afirmou em entrevista que o mercado é favorável ao impeachment, como se o mercado fosse um ente metafísico”. Para Chauí, a classe dominante conta com o apoio de uma classe média “proto fascista” para implantar um governo reacionário depois de derrubar Dilma Rousseff.
“Se o golpe vier, nós teremos uma ditadura que nos fará considerar 64 como um pão doce com bolacha”, previu sobre o futuro.
Para o jurista Fábio Konder Comparato, que encerrou o evento, no Brasil vigem duas Constituições. A de 1988, nunca totalmente regulamentada, e a “real, ditada pela oligarquia”. Para ele, o impeachment seria a vitória indiscutível desta constituição “de fachada”, que privilegia os de cima às custas dos de baixo.



http://www.viomundo.com.br/politica/para-chaui-golpe-agora-fara-64-parecer-pao-doce-critico-do-pt-arantes-relembra-milicias-fascistas-para-schwarcz-estrategia-da-oposicao-foi-tornar-pais-ingovernavel-nobre-diz-que-brasil-vie-eng.html

Cunha tinha dois boletins de ocorrência sobre ex-relator do Conselho de Ética

Agência O Globo
 
No pedido de afastamento do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), o Ministério Público Federal afirma que dois boletins de ocorrência relacionados ao deputado Fausto Pinato (PRB-SP), ex-relator do caso de Cunha no Conselho de Ética, foram apreendidos, um deles no paletó do peemedebista e outro no escritório de Cunha. O segundo documento tratava de uma briga com agressão física envolvendo Pinato.
“O interesse do EDUARDO CUNHA possivelmente era conhecer a extensão de fatos supostamente desonrosos envolvendo o Deputado Fausto Pinato para que pudesse, de alguma maneira, constrangê-lo caso levasse adiante o intento de prejudicar o EDUARDO CUNHA junto ao Conselho de Ética”, diz o Ministério Público, depois de mencionar que Pinato estava envolvido em um possível “cometimento de contravenção penal de vias de fato”.
Já o boletim de ocorrência encontrado no paletó de Cunha “se refere ao crime de ameaça supostamente praticado em desfavor do ex-relator do processo instaurado em face do EDUARDO CUNHA no Conselho de Ética” . Pinato havia relatado em entrevista à “Folha de S. Paulo” que teria sido ameaçado em um aeroporto.
“O fato de o EDUARDO CUNHA guardar cópia deste boletim demonstra interesse incomum por um fato ocorrido a um terceiro que não é pessoa de sua estreita proximidade. O interesse só se justifica se as supostas ameaças dirigidas ao ex-relator do Conselho de Ética tiverem origem em ações preordenadas pelo EDUARDO CUNHA, o que é bastante plausível, considerando que o Deputado Fausto Ruy Pinato manifestou-se favorável à abertura do processo em face de EDUARDO CUNHA. Nesta hipótese, é natural que o EDUARDO CUNHA queira acompanhar de forma mais atenta as declarações do Deputado Fausto Pinato relativo ao crime de ameaça. Esse documento apreendido certamente reforça a suspeita em torno da atuação do EDUARDO CUNHA para pressionar o então relator do seu processo no Conselho de Ética”, diz o Ministério Público.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mais um vídeo de ódio no Facebook. Menor apanha em protesto no Rio



Suspeito de roubo está dominado por PMs quando toma tapas e xingamentos. "Tem que metralhar!", diz manifestante

BRUNO FERRARI
15/12/2015 - 19h07 - Atualizado 15/12/2015 19h32

Garoto detido pela polícia é agredido por manifestantes (Foto: reprodução/Facebook)
"Tem que metralhar. Tem que metralhar. Tiro na cabeça. É isso que tem que fazer", diz uma jovem moça, usando um top cinza e uma calça de ginástica. É o desfecho de um vídeo que durou pouco mais de dois minutos no domingo (13/12), durante as manifestações no Rio de Janeiro. O destinatário das palavras é um garoto que aparenta ter uns 10-12 anos de idade. Ele foi detido por policiais militares por suspeita de ter roubado um manifestante. 
Momentos antes, o menino, já dominado pelos PMs, tenta se justificar enquanto é revistado pelos agentes. Alguns manifestantes se revezam para desferir tapas e socos na cabeça da criança. "Filho da p... Vai roubar da tua mãe", grita uma senhora mais exaltada.
Um senhor de camisa amarela e boné azul claro se aproxima do garoto e puxa o cabelo dele. É afastado por um cidadão que tentava proteger o menor. Logo depois, outro homem, com camisa que pedia o impeachment da presidente, se aproxima e dá um tapa forte na cabeça do suspeito. A senhora, de chapéu e óculos escuros, a mesma que xingava o garoto de filho da p..., então se aproxima e desfere mais um golpe.
A cena continua. Um senhor de cabelos brancos, óculos escuros, bermuda e camiseta azul desfere o tapa com mais força no menino, que é encaminhado para a viatura.
Já dentro do carro, alguns manifestantes se juntam ao redor da viatura e continuam com os xingamentos. “Ladrãozinho". "Desgraçado". "Cadê os diretos humanos para defender?”, diz uma senhora. “E o guarda quer me levar preso. É a inversão de valores!”, falou um dos adultos envolvidos na confusão. Neste momento, o senhor de cabelos brancos, óculos escuros, autor do tapa mais forte se aproxima e diz em voz alta para acalmar seu colega: “Não vai levar preso p... nenhuma”.

O vídeo termina e, aparentemente, ninguém, além do garoto, vai preso.

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